sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O último do ano

E que o ano que vem não tenha filtros, não tenha diques, não tenha lama. Que o ano novo não tenha caos, não tenha chatos, mas que tenha amigos e até inimigos, pois é necessário. Que o ano que vem não tenha tralhas, não tenha trapos e que não tenha, suplico, nenhuma vidraça. Porque eu odeio as vidraças. Mas que, tendo, se porventura aparecerem, essas sapecas, que eu veja cores, que eu veja gente, que eu veja tudo. Que eu veja a minha vida em vermelho e amarelo, as minhas preferidas, que eu veja os meus pares do lado de cá e não mais por detrás, que eu veja só reflexos do nada em meio ao tudo, em meio ao antro em que me buscaram, ou que eu veja simples devaneios, que seja, mas que mesmo assim eu consiga perceber que é a vida me chamando, ou o mundo me secando, ou apenas o novo proclamando mais uma de suas sábias profecias. Venha. E que num tiro certeiro, único, de súbito, no primeiro minuto do ano que vem, em meio a foguetórios e festas em todo país, em todos os cantos do mundo, em cada esquina, que eu esteja em mim, comigo, na festa da minha alma, numa celebração só minha, do tipo egoísta, que eu vá ao meu encontro e que eu consiga lançar um último olhar maroto para trás, para o ano que fica, e perceba são, lúcido e, enfim, cada minucioso detalhe do seu derradeiro ato: a vidraça estilhaçada. Fui.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

o ano que vem

não quero comemorar o ano que vem
eu quero é despedir-me arrogantemente do que vai
dilacerante
esse ano que só foi de minúsculas, rugas e licenças
do novo eu quero a incerteza

não quero comemorar o ano que vem
dele quero a incompletude
só o farei quando acabar, quando tiver a certeza de que foi
ao contrário do outro, lancinante
esse ano que ficou, que fincou, explodiu

não quero comemorar o ano que vem
dele quero a rebeldia
só o farei quando estiver sóbrio, jovem, nobre e protagonista
indiferente
esse ano cinzento, cafona e altruísta, um delinquente

não quero comemorar o ano que vem
dele quero despir-me, do agora
vejo tantos querendo o mesmo, ferozmente, livrai-nos desses trapos
e que sejamos viris
esse ano bege, blue, careta, sem muitos anis

não quero comemorar o ano que vem
eu quero é que venha com paz, e não que eu queira demais
sagaz
mas que fique pra trás, e que eu seja voraz, e pra sempre capaz
esse ano que esvai, sem pensar em voltar

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Preciso ir

Preciso ir. Preciso logo. Não aguento mais um minuto aqui nesse lugar.
Preciso ir. Que seja breve. Antes que seja tarde, que não me caiba mais lá.
Preciso ir. Preciso muito. Aqui de espectador, agora, não é onde devo estar.
Preciso ir. Já. Preciso ir pra lá. Também talvez não seja, mas eu prefiro tentar.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A minha versão do natal

Não gosto das mensagens de natal. Respeito, claro, mas as acho clichê do tipo copia e cola, muito padrão e meio sem inspiração. São todas iguais. Vale a intenção, adoro recebê-las. Mas muito mais pela lembrança, com a sua licença, não pelo conteúdo. E que me desculpem os plantonistas que insistem em postarem e repostarem mensagens desse tipo nas redes sociais. A minha caixa está cheia já. O que eu gosto mesmo é das dos meus amigos, dos meus melhores. Gosto daquelas mais legítimas, que vêm da alma, que vêm das entranhas, que vêm meio que de supetão em movimentos despretensiosos. Prefiro sempre um simples feliz natal carregado de verdade e singelezas do dia-a-dia, ou um presente inusitado daqueles que a gente encontra na rua meio que sem querer e acaba achando a cara daquele sujeito. E ele adora, e eu adoro assim. E, desses, eu prefiro também presença, prefiro ouvir as vozes, prefiro quebrar as nozes e embebedar-me junto deles, prefiro que saibam que me têm eternamente ao lado, ou por perto, ou até mesmo ao longe. Prefiro então, naturalmente, desejar-lhes muito mais do que um feliz natal com mensagens copiadas e coladas do Drummond, da Clarice ou da Martha, ou daqueles que insistem em fazer re-post de Então é Natal na voz da Simone. Desejo-lhes desapego, para seguir, desejo-lhes conforto, para dormir, desejo-lhes dinheiro, para gastarem tudo, desejo-lhes as melhores drogas, para suportarem, desejo-lhes a minha alma, para se embriagarem, e desejo-lhes por fim vida, sempre, pra sempre, porque assim é que é bonito.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A tua felicidade

É que a tua felicidade tem a dose certa da maldade
O peso denso da vaidade
O tamanho da miséria
Do ontem que se foi, virou matéria

É que a tua felicidade tem vários dilemas, saídas, partidas
Tem vários momentos, espelhos, retratos
Tem muitas facetas, vontades, verdades
Tem a alma do poeta e de todas as suas metades

É que a tua felicidade é diferente de outrora
Tem muitos aspectos, espectros, dejetos
Tem muito de ti, do novo, da vida
Tem muito pra si, repartir, imergir
Tem muito por vir, viver, seguir

É que a tua felicidade tem o tamanho do teu peito
É só do teu jeito, é novo, mudou
Tem só um momento, ajeita, e vai
Tem só o teu lado, um vaso, uma cor
Um único preço, é caro, é meu

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O ano em que os meus amigos não saíram de férias

Àqueles que não são todos, pois não são tantos, mas são bons.
Àqueles que foram sensíveis e pacientes.
Àqueles que me ouviram, incansáveis, pois quase fui intragável.
Àqueles que me mandaram ao médico à força, quando preciso foi.
Àqueles que me acompanharam nos botecos, me aguentaram e choraram juntos até as madrugadas, pois eu sei que foi difícil.
Àqueles que entenderam, no trabalho, o quão difícil vem sendo essa minha labuta para dar conta, pois é um passo a cada vez.
Àqueles que entenderam, na vida, que tudo que tem duas metades uma hora se divide, e que a minha foi bem mais frágil que a que se foi.
Àqueles que me disseram palavras duras, mas necessárias.
Àqueles que me disseram palavras dóceis, e me acalmaram.
Àqueles que insistentemente ainda tentam me apresentar o novo, a vida que segue, a flor do lado de cá.
Àqueles que aceitaram esse meu egoísmo constante, o meu monólogo sem fim, inacabado, porque esse ano foi duro, mas agora acabou.
Àqueles que me apoiaram em manter um blog, mesmo sabendo que é ruim.
Àqueles que me apoiaram a escrever um livro, mesmo sabendo que é mais um dos ácidos que eu tomei, pois sou um pouco louco.
Àqueles que me presentearam com presença, com presentes e com flores.
Àqueles que me presentearam com verdades, com sorrisos e risadas.
Àqueles que me confortaram com abraços, beijos e apertos.
Àqueles que me reconfortaram com afeto, carinho e ternura.
Àqueles que surgiram, assim, do nada, e vieram para ficar.
Àqueles que ficaram, assim, com tudo, sem contudo e sem senão.
Àqueles novos que não estão de passagem.
Àqueles que sabem que podem contar comigo para o que der, vier e mais um pouco.
Àqueles que eu aprendi a respeitar, ser leal e amar.
Àqueles que sabem quem são, como vocês o são.

Que venha 2012, e que seja novo, e que seja simples, e que seja doce, e que sejamos todos, unidos, invencíveis e intactos ante ao ódio dos outros. Sejamos nós, sejamos poucos, mas sejamos sempre.

Aos meus amigos. Os meus melhores.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Porque sorrir não custa nada...

Sorriso bom é o daqueles que não são todos, mas bons o suficiente para serem meus. É o de quem vai ao buteco comigo, e não às compras, é o de quem me aguenta berrar, e berra junto, me aguenta cantar, e canta junto, me observa pular, e pula junto.

Sorriso bom é o que despenca. É o que vem das crianças, o das entranhas, o das lembranças. É o daqueles sensíveis e pacientes, dos menos chatos, das minhas danças. É o dos que te veem sofrendo e chorando aos cantos, mas que depois se lançam, te lançam e te amansam.

Sorriso bom é quando é gratuito, legítimo e sincero, é quando não era para ser e mesmo assim acaba sendo. É quando você dá conta de sorrir e se dá conta de que sorrir faz bem, que ainda é o melhor remédio, e que é bom. É quando a outra parte também sorri sem querer, é quando é flerte sem ser em vão, é quando é conquista sem um senão, é quando é começo, meio e fim, sem direção.

Sorriso bom é sem porém, é para alguém. É o que eu aprendi a receber dos meus melhores, dos meus amigos, dos meus pares, dos meus pais, dos meus senhores, dos meus amores, dos sem favores, é o sorriso oculto das flores. É o da presença, mesmo na ausência, é o sorriso maroto sem muita licença, ou dos palhaços, à sua maneira, ou dos velhinhos, à moda antiga e derradeira.

Sorriso bom é o que conforta, é o que afeta, é o que sabe porque está sorrindo, mas, não sabendo, sorri mesmo assim. É aquele azul da cor do céu, ou do mar, ou com a magia da verdade do marinheiro ao avistar, ou do jangadeiro a navegar, ou do poeta a rascunhar. É o do dever cumprido, o da alma livre, o do seu cupido.

Sorriso bom é escarrado, escancarado, despreocupado. É o da chuva quando molha, é o da terra quando cheira, é o teu quando é pra mim. Enfim. É aquele atravessado na esquina, o da vizinha escondida atrás da janela, o do síndico na escadaria do prédio, o do cãozinho primata selvagem achado ao léu. É um sorriso sem véu, é um sorriso ao léu.

Sorriso bom é aquele hilário que vem de ácido, é o sarcástico que te agita, é o certeiro que hipnotiza, é o direto que te cega, é aquele seco pela metade, é aquele suave sem mediocridade, é o que te desvia e depois corrompe. É aquele que te faz sorrir de volta e, de graça, te faz levitar, voar e sonhar. É despretensioso, tiro certo, difícil de encaixar. É o que faz lembrar-te do terreiro de café da vovó, que vem e passa, como se fosse um trenó.

Sorriso bom é o que te esmaga sem te maltratar, é o que te deixa com a pupila dilatada sem desrespeitar, é o que te deixa com insônia, te desconserta e depois te estraga. Sorriso bom é qualquer um, desde que genuíno, espontâneo e ingênuo, libertino, é aquele difícil de achar, de comprar, de barganhar, e que dure o tempo que precisar. Sorriso bom é o que te faz sentir, reagir, seguir, é o que te faz maior, é o que te faz sem dó, é o que te dá um nó, é o que te faz melhor.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Éramos seis

Éramos seis, e éramos inseparáveis
Éramos seis, e éramos intragáveis
Éramos seis, e éramos embriagáveis
Éramos seis, e éramos insuportáveis

Éramos seis, e tínhamos razão
Éramos seis, e uma época sem não
Éramos seis, e cozinhávamos paixão
Éramos seis, e não tínhamos senão

Éramos seis, e depois fomos tantos
Éramos seis, e depois fomos poucos
Éramos seis, e depois fomos vácuo
Éramos seis, e depois fomos nada

Onde estará...

E talvez você se pegue um dia, quem sabe, procurando por aquela garota que reclamava do seu jeito, que tinha manias, que tinha sotaque, que fumava, que era chatinha, que tinha problemas com horários, que tinha trejeitos que te faziam tremer, estranhos, e que gostava de chorar. Que te fazia chorar. Mas talvez, no fundo, ela gostasse do seu lar, ela gostasse do seu jeito, ela gostasse do seu mar, ela queria ser teu par, ela gostava de você.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Tempo de passagem

É tempo de passagem, é tempo de espera. É tempo de renascer, reviver, rejuvenescer e pensar que, antes do verão, ainda há uma primavera inteira pela frente. E novamente sozinho, ou não, ainda não sei, mas que venha. E que seja doce, que seja dócil, que seja fértil, e que tenha uma estrada amarela e florida, como a estação mais bela, e que tenha filmes, pipocas e algodões-doces, como a velha infância, e que tenha vida, e que tenha vinhos, e que tenha amigos, tantos, e que venha a areia escaldante nos meus pés quase negros e inchados, estou de passagem, e que venha o verão, e que eu saia do sertão, a gente, e que haja um caminho bem manso e tranquilo, como os teus olhos em brasa, e um final bem quente e vermelho, vivo, como a parede da tua casa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A insônia e o ano que vem...

É que ontem choveu de novo, encharcou, inundou, tudo voltou. Estava tudo um caos, carros, buzinas, estardalhaços, a cidade parada, e eu também. Meu coração imóvel. E de repente, e meio que sem querer, tudo mudou de novo. Foi quando a noite chegou. E é que quando ela chega, e pra mim é bem tarde, eu abro o meu livro da cabeceira e leio vinte ou trinta páginas, é meio que um ritual, mas ontem eu fui incapaz, estático, só pude me lembrar de ti até mesmo quando fechava os olhos e tentava dormir. Não sei direito ainda o que é e pode até ser que não seja nada, que tenha sido só ontem, mais uma noite densa, sei que tenho trabalhado bastante para logo partir em férias, enfim, me livrar por completo desse ano que vai. Estou ansiosamente à espera do novo que vem. E então veio a insônia, fazia tempos que não aparecia, e na insônia também estava você. E você vinha junto com palavras, com desenhos a base de nanquim, escuros, uma pitadinha de contrariedade, estava meio desfigurada, eu não entendo bem, não te reconhecia, é de se desvendar, sei que era você de alguma forma desmaterializada e acho mesmo que é a espera do que há de vir. Do que está por vir. E que venha. E está perto, próximo, estimo, muito embora não reconheça, já sinto a água salgada do mar tocando os meus pés sujos, os seus lindos, sete pulinhos, e a gente na beira do mar sorrindo, de noite, de dia, comemorando o ano que vem como se fosse o sempre, o ontem, pra sempre, despreocupados, entregues àquilo, entregues ao mar, entregues à vida...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Meia-noite em Paris

Essa semana eu assisti Meia-noite em Paris. Até que enfim, estava muito ansioso. Afinal, o cara vinha de uma magistral sequência com Match Point, Vicky e Whatever Works, adorei todos eles, nem sei como esse sujeito consegue dar canja toda segunda no Café Carlyle, ufa, não vem ao caso porque eu canso só de pensar. Mas Meia-noite, ainda sem saber muito bem o motivo, eu adorei um pouco menos do que o esperado. Não menos que os outros, é verdade, talvez até um pouco mais, pois é lindo, mas eu fiquei com um gostinho de falta. Faltou algo. Viagem gostosa essa que ele nos proporcionou, ácido delirante, acho que o que eu queria mesmo era ser um pouco o Gil, estar no lugar dele à meia-noite em Paris, talvez seja isso. Deve ser.

Sei que, mesmo com tudo, contudo, me marcou especialmente uma das primeiras passagens do filme. O diálogo inicial entre Gil e Hemingway, onde Gil quer insistentemente apresentar o seu romance a Hemingway, e o segundo diz algo mais ou menos parecido com “não queira me mostrar os seus textos antes de publicá-los. Ou eu vou odiá-los, como sempre o faço, ou eu vou ficar com ciúmes. Então não me mostre”. Pirei.

E agora, José? Pergunto. É que eu estava indo bem, empolgado, mas me vem esse danado com essa, uma pedra bem grande no meu caminho, no meu sapato, no meu rascunho e, logo eu, que estava me relevando aos poucos, quase ultrapassando a barreira da burrice, da timidez e da estranhice, me aceitando desse jeito assim tipo escritor, quase lá, sei lá, recuei. É que eu não sou tão seguro assim, na verdade sou bastante influenciável, meio que um picaretinha sem personalidade. Figura instável. Por via das dúvidas, então, o desespero me tomou de assalto, não pensei duas vezes antes de bloquear todas as minhas pastas com senhas alfanuméricas, testadas em softwares extremamente explosivos produzidos pela Al-Qaeda e trancadas com os cadeados do castelo de Greyskull pelo Esqueleto, posso viajar também, me permito, tudo para que ele não ouse sequer chegar perto dos meus textos. Aqui não, meu caro Hemingway. Prefiro ficar na dúvida até que a morte nos encontre ou quem sabe, talvez, até que eu volte à Paris.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O oposto que esvai...


Ando sem motivo pra ir
Sem sentido pra vir
Sem pensar em voltar
Nem lembrar do que foi
E que ainda se esvai
No sentido de tudo

sábado, 10 de dezembro de 2011

No sentido que esvai...

Ando no sentido de ir
No sentido de vir
Do pensar em voltar
Do sentido que foi
E que às vezes se esvai
No sentido de nada

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

E seja o que (D)eus quiser

Costumo escrever deus com minúsculas, é que não lhe dou tanta importância assim, na verdade eu desisti, mas é que hoje foi um dia tão feliz, a semana foi, estou sorrindo bastante - e por enquanto sozinho -, dias esquisitamente bons, leves e novos, agradeço-lhe então com Maiúsculas, estimado deus, e com a vossa licença.

Tudo começou, na verdade, no fim de semana passado. Algumas revelações profissionais, outras pessoais, outras nem tanto cá, nem tanto lá, mais duvidosas do que qualquer outra coisa, sei que me deixaram com uma pulguinha atrás da orelha, uma pitadinha de ansiedade e uma vontade súbita de seguir, de pular e de continuar nessa minha jornada em busca de flores. E é engraçado, porque esses pequenos movimentos, imperceptíveis na maioria das vezes e que acabaram acompanhando-me durante toda a semana, se colocam agora diante de mim como um grande desafio. É meio como se eu tivesse que pegar um balão nesse exato momento, subir nas nuvens e depois pular lá de cima, do lugar mais alto possível e sem paraquedas, mas com uma estranha sensação de que, quando voltar, haverá um lugarzinho pra mim aqui nesse ordinário ambiente em que chamamos de terra, às vezes chato, mas onde teremos de nos aguentar, afinal é onde amamos e onde morreremos, todos juntos, um dia.

E é tudo tão indescritível, tão perto, tão longe, mas tão real. É que a escrita surgiu na minha vida, assim, do nada. E aí veio um, vieram outros, vieram muitos textos, me empolguei, quis continuar arriscando. Pode até ser que dê tudo errado, falei isso mais cedo, mas pode ser também que não, mas ter sensações semelhantes às do dia em que eu dei o primeiro beijo ou às de quando eu ganhei o campeonato mineiro de xadrez – e olha que eu tinha treze e quatorze anos, respectivamente – é inigualável. Gosto muito dessas experiências sensoriais tão difíceis de pegar, de achar, às vezes até de me achar, lá se foram quinze anos, mas hoje estou assim de novo.

É que mais uma vez me pego num desses voos solos e livres em direção ao choro, ao novo, ao nada, ao incerto, em direção a mim, vou revelar-me num livro no ano que vem, ou no outro, não tenho pressa e nem angústia, mas a minha vontade agora é gritar, berrar, botar a boca no trombone, caminhar de charrete, cantar sozinho na rua, dançar, ser o que eu quiser daqui pra frente, caminhar, pular, sorrir, sentir, me sentir, te sentir, me jogar, viver intensamente até que esse dia chegue e seja - com direito a maiúscula e do alto de sua boa vontade - o que Deus quiser.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O devorador de cérebros e o ciclo do suicídio

É como se ontem fosse muito ontem, antigo, é como se a cada novo texto que vem um outro morresse, tudo vem envelhecendo com muita celeridade e a vida, lá fora, passa. Os carros correm, os homens protestam, eu planto um jardim, alguns arrancam as flores, você se transforma, está nova, mais nova, as meninas paqueram, os meninos esperam, os outros escrevem, os pássaros voam, astronautas também, enquanto as manchetes somem e as minhas cartas, as suas, as nossas, a gente e as crônicas dessa nossa fase adulta, assim como os meus textos, meio que se vão. Envelhecem. É como se de uma hora para a outra, na estação daquilo que chamamos, talvez por engano, de vida, eu e os meus textos nos lançássemos no primeiro trem que viesse, parássemos em uma outra estação qualquer, retrógrada e adocicada com aspartame, e nos transformássemos em flagelos, imóveis e desfigurados, presos dentro de um antiquário chamado hoje.

O antigo é carregado. É pesado. O tempo pesa, as agulhas do presente me serram e as frestas do passado se cerram. É como se a cada nova inspiração que vem, abruptamente uma outra se esvai. Vai para o fundo a gaveta. Morre. E a morte custa caro. Sinto-me então como se eu estivesse pulando da janela mais alta de um edifício bem alto de uma cidade bem alta ou me enforcando, meio deprimido, não sei, é como se eu estivesse sendo vomitado de mim, por mim, tim-tim por tim-tim, e esquartejado durante a queda livre em plena distensão e, depois, encontrado em miúdos grãos de areia na beira do mar, ao relento como um solitário cavaleiro das flores, muito embora bravo e rebelde como as ondas gigantes que vão e vêm, furiosas, e destroem tudo à nossa volta.

O passado é desastroso, é velho, e eu também, e a cada nova escrita que vem, como os jovens protagonistas de uma pseudo vida adulta, é uma outra que se vai. Vamos. A entrega de uma alma por completo faz com que sejamos assim. Com que os meus textos se sintam assim. Nos entregamos, somos ensandecidos, depois morremos e ficamos nessa de tentar ressuscitar. É um processo desses do tipo que vai, não volta e você não é capaz de dar a mínima. Não é capaz de pegar. Nem você, nem eu e nem todos os nossos amigos, inimigos ou até mesmo os simpatizantes das nossas dissertações sobre o tudo, ou sobre o nada, em vão, todos aqueles que não saíram de férias neste ano que também se vai, que também morrerá em breve, neste ano que foi. É um ciclo vicioso. É como se as inspirações virtuosas de outrora não fizessem mais parte dos meus dias, é como se houvesse uma fuga em massa do meu repertório, fizeram rebelião essas bandidas e malvadas, e não que eu tivesse desleixo a ponto de jogá-las no lixo ou fosse disléxico a ponto de não encará-las, aceitá-las, mas é que hoje é difícil por demais revisitá-las, eu engasgo, foram todas engolidas pelo destino que se traduziu em hoje, ficaram pequenas e menores. Sumiram.

É como se o passado não pudesse mais vingar, vingar-se, ficou antigo, morto, eu fugi, o tempo é caro, raro, morreram-se os textos, os poemas, as ideias, mas virão outras e outros, como já estão vindo, eu sei, só que eu me sinto repentinamente integrante de uma decadente banda pop dos anos oitenta que ainda reluta em seguir. E eu preciso seguir, mesmo decadente e trupicante, preciso continuar nessa de me tentar, de ser o meu maior assassino, de insistir em querer pulverizar, massacrar e fuzilar os meus próprios textos, o meu outro, o meu antigo, simplesmente porque eu preciso de novos, do novo, eu preciso da inspiração de outrora, eu preciso devorar novos cérebros. Eu sou um devorador de cérebros, um caçador de almas, é por isso que eu escrevo. É como se a cada novo texto que vem eu conquistasse uma alma.

E como morre um texto a cada outro que vem, então uma alma também. Mas eu preciso delas, é meio controverso e então eu preciso matar, porque senão eu não cresço, não tenho almas, não tenho textos, então sai caro, muitos morrem, poucos se salvam, é meio que o avesso da minha própria cena, o meu contrário, o libertário, mas eu não conseguiria de outra maneira porque eu preciso disso para seguir. Me dá calor, é vida. E então eu mesmo provoco esse ciclo de suicídio em massa, que se alimenta em cadeia e porventura desabrocha em forma de flor, poesia ou simpatia, mas é um suicídio, tenho que lembrar, é como se fosse uma escada torta, trepidante e cruel para que eu consiga recrutar, aos poucos, uma alma por vez para alimentar por completo aquele que hoje eu chamo por o meu peito em chamas. É pura brasa, é fogo dos infernos, dos invernos, eu clamo, é um veneno só, sinto-me um serial killer da escrita e dos meus textos. E nessa colheita maldita, mal dita e azeda, como se fosse um presente de natal singelo, doce e suave do papai noel, aquele safado e mentiroso duma figa, eu agora quero a tua. A tua alma libertina.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Lutamos como nunca, perderemos como sempre?

O post de baixo era só um anúncio, uma revelação abrupta e momentânea, inspirada no meu cansaço com o mundo, com as coisas, com a repressão, a opressão e a depressão gerada por ambas e por todas as pessoas de mal. É preciso lutar, é preciso continuar, é preciso esganar as entranhas de quem não quer nos encontrar lá na frente, olhos nos olhos, dente por dente.

O que será da gente, no final da ponte, se não lutarmos?
O que será da gente, no final do túnel, se não gritarmos?
O que será de nós, no final de tudo, se não vencermos?

Meus caros, eu não estou falando de boxe ou de luta livre, longe disso, eu estou falando de ideal. De lutarmos pelos nossos ideais, pelas conquistas, pela marcação de territórios alienígenas, de vencer o lado negro da força, de conquistar posições, essa coisa toda de transcender o lugar comum. É preciso. Ontem, eu vi um filme que fez lembrar-me disso - “Trotsky – A revolução começa na escola” -, é um delicioso programa, bem divertido, coisa e tal, uma dessas novas produções independentes. E como eu ando abobalhado emocionalmente, um ser encharcado de sensibilidade, chorei como de praxe. Mas, dessa vez não foi por algo triste que me lembrei ou por alguma passagem da trama, foi pelas claras cutucadas que o filme me deu - algumas ocultas, outras explícitas -, escancarou-me e jogou-me na cara o fato de que eu preciso sair do meio.

Porque meio é equilíbrio de mais, é vida de menos, meio é sem-vergonha, é meio sem-vergonha.

E não que eu sempre fique no meio, ao contrário, mas é que eu tenho ficado escondido atrás das câmeras. É como se eu estivesse atrás das grades, é a minha zona de conforto de momento. Eu vejo movimentos como a ocupação da reitoria da USP, os protestos nus por todo o leste europeu, wall street, vejo os mais agitados que vão à rua em prol da maconha, da liberdade de expressão, contra a prostituição infantil, contra o racismo, contra os salários indignos dos professores, contra a violência com as mulheres, a liberdade sexual, e por aí vai. Não que eu participaria de todos eles, também não são causas em comum, escolho algumas, mas todas, sobretudo, na toada de que podemos fazer um mundo melhor.

E o mundo, acredito, está bastante esperançoso com essa pontinha de chama que começa a se acender, como bem disse a danada da Mafalda na semana passada.

E seja lá qual for o seu ideal, espalhe a palavra, já que a gíria está na moda, a voz do povo é a voz da ordem. É preciso posição, é preciso afirmação, é preciso usar as armas que não estavam no repertório, é preciso gritar. E gritar é embater. A hora chegou, é preciso lutar sem socos, pontapés ou armas brancas. É preciso lutar com a verdade. Com a sua, com a minha, com a nossa. E eu não estou aqui para falar de política, nem de amor, de nada disso, nem da diferença entre fazer compras no carrefour e na venda do manoel aqui da esquina, entre quem bebe cachaça a quem prefere vodca ou entre quem frequenta o 41 e o Bordello a quem prefere o Tizé e a Nasala.

Quero apenas manifestar-me sobre mais uma dessas descobertas, mesmo que sensivelmente tardia e que, agora, se tornou maior que eu. Eu estava tolo, eu estava no meio, eu estava no armário, atrás das câmeras, meio que preso, aquela coisa toda. E que sejamos então, mais do que nunca, um trator de guerra em plena paz celestial, mas pelo lado oposto de outrora, e que essa seja regionalmente chamada por estação daqui em diante, e que estejamos todos de biquínis e sungas, com pranchas, protetores solares e camisas coloridas, #eutambemsougay, é mais ou menos por aí, mas que saibamos sempre por que, para quem e com quem lutarmos. É preciso saber. Não estou defendendo ou apoiando ninguém em especial, muito menos fazendo juízo, quero apenas colocar em evidência as essências e a originalidade, para não falar coragem, daqueles que têm insistido em transcender a barreira do politicamente correto, do que foi colocado como certo ou aquilo que a tradicional família mineira nos ensinou.

Eu vos admiro, meus caros, sei que é preciso lutar e que é preciso continuar e que, para continuar, não podemos parar. Eles estão aí, estão todos aí, o lado negro da força está. Não podemos morrer na praia, a praça é nossa, a cidade é, o meu futuro é o seu, e o seu é o meu. Então vamos juntos?

Aja (ou se comprima)


Vocês lutam pelos oprimidos,
Nós lutamos pelos reprimidos.
Vós deprimidos,
Nós depressivos,
Todos nós, comprimidos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Meio sim, meio não, meio ebulição

Hoje eu acordei um pouco estranho. Estou me sentindo surdo, por não entender, um pouco cego, por não enxergar, um pouco maldito, por não conseguir me lembrar de ontem. Hoje eu não sonhei, é verdade, e isso é ruim, eu acho, acordei com o livro de ontem à noite em cima do meu peito, não me recordo muito bem da página que eu parei, o marcador caiu no chão durante a noite e talvez, por isso, eu tenha acordado assim, e talvez, concluo, o aqui e o agora não sejam o meu lugar.

Mas vai passar, eu sei que passa, tudo passa, mesmo não querendo, uma hora passa.

Mas os meus dias, ao contrário de hoje, têm sido bem divertidos também. É impressionante como não me encontro mais naquele de outrora, não me reconheço mais, sinto-me um estranho em mim, revelo-me em singelos atos despretensiosos nos meus dias. Ontem mesmo, eu chorei assistindo ao noticiário esportivo do almoço, anteontem eu chorei com um espetáculo de teatro, me reconheci nos atores e depois, mais tarde, eu ri desenfreadamente com um filme de terror, daqueles do tipo bem trash, aposto que isto nunca lhe ocorreu.

Mas vai passar, eu sei que passa, tudo passa, mesmo não querendo, uma hora passa.

E amanhã, certamente, eu vou rir ou chorar com algo novo e ainda não terei me livrado da overdose por todas aquelas drogas pesadas e sequenciais da semana passada. E não eram drogas do tipo tradicionais. Ando embriagado de mim, dos meus livros, dos meus filmes e da minha escrita também. Então eu vou andar na chuva, vou com o meu guarda-chuva azul, ou talvez com o vermelho, andar, andar, andar, cantar e sorrir, reencontrar-me nessa minha vida sem mim.

Mas vai passar, eu sei que passa, tudo passa, mesmo não querendo, uma hora passa.

Aí então eu preferi ficar assim, me aceitando enquanto eu conseguir, dançando, cantando e sorrindo, me preferindo enquanto der, sem me redimir de mim, ou enquanto eu puder. Afinal de contas, eu estou apaixonando-me por mim e deixei envolver-me nessa história. Muito embora, naturalmente, eu deva reconhecer que não haja lugar mais perigoso e traiçoeiro do que a minha própria mente, que não há lugar mais frio, mais longe e mais distante do que a minha própria alma e que não há lugar mais triste, fraco e mais vazio do que o meu coração, esse menor abandonado encontrado na lixeira ali da esquina. Da esquina de um lugar qualquer. E nem se surgisse outra história de amor por agora, comigo ou consigo, daquelas do tipo pra vida inteira, eu deixaria de me preferir. E não que eu não queira ou que eu não vá te aceitar, mas é que eu me aceitei e me joguei em mim. Estou bem assim.

Mas vai passar, eu sei que passa, tudo passa, mesmo não querendo, uma hora passa.

Não sei de você e nem dos seus planos, das suas estratégias mirabolantes em dar um drible no passado e viver intensamente o presente, fazer um gol de letra, mas comigo vai bem assim, incredulamente duvidoso enquanto tudo isso durar. E mesmo sem saber explicar direito, se é dor, se é amor, se é calor, se é o cheiro da flor do vizinho ou se ainda são as drogas pesadas da semana passada, eu sei que os meus dias têm sido assim, meio bons, meio ruins, meio silêncio, meio diversão, meio inquietude, meio solidão, meio sim, meio não, meio ebulição.

Mas vai passar, eu sei que passa, tudo passa, mesmo não querendo, uma hora passa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carta encontrada...

Hoje cedo, eu estava saindo para o trabalho, tropecei no degrau da portaria do prédio e, me recompondo, vi na calçada um papelzinho meio rasgado e molhado, provavelmente da chuva de ontem. Povo mal educado, pensei. Fui pegar o trapinho para jogar no lixo e, quando me agachei, percebi que tinham alguns manuscritos. Era uma carta. Comecei a ler, não consegui parar, fui até o final e ali mesmo, na porta de casa, os meus olhos enxertaram-se em lágrimas.

Era uma carta da Mariana para o Vítor. Não os conheço, não sei os seus sobrenomes, quem são os seus pais e muito menos onde moram, mas achei linda a história deles, é do tipo para chamar de minha.

E foi assim que começou o meu dia, decidi compartilhar.
---


Vítor,

“Olhos nos olhos, quero ver o que você faz”. Quero saber como vai você, que agora está aí do outro lado do balcão, que me deixou e depois me disse para eu ser feliz, que ficasse bem. Eu quase enlouqueci, conversei com as paredes, tive um edredom gigante só para mim, o sofá, os livros, as cartas, tive que lavar todas as roupas sozinha, cozinhar para o nada, fiquei dias e dias no vazio assistindo todas as novelas, das seis, das sete, das oito, levei meses para acabar com aquela série americana do médico que a gente adorava - e que não me lembro do nome agora -, era aquele Dr. Barbudinho, e nos intervalos eu me alternava entre os sorvetes importados que restaram e os filmes piratas do Woody Allen que compramos. Lembra? Assisti todos.

Quando você me deixou, Vitor, eu não pensava em reencontro e acho que você muito menos. Você se mudou de mim, quis que eu fosse feliz e que passasse bem, porque a vida segue, mas acho que você desejou também que eu ficasse com uma pitadinha de ciúme e eu, como era de costume, obedeci. Segui à risca. Os ciúmes não passaram, acho que nunca vão passar, mas a outra parte eu dei conta, afinal lá se foram dois anos desde que você se foi. E aí, meu bem, como você sugeriu, hoje eu passo bem. Cantarolo na chuva, me divirto com o meu guarda-chuva vermelho e o meu tênis all-star amarelo sujo, pego ele, ando, ando, ando, vou à praia, ao cinema, ao teatro, faço compras, vira e mexe eu saio com o meu fone de ouvido e o volume do ipod no último, que é para o mundo não me incomodar. Hoje eu sou maior que ele, me sinto mais importante do que tudo, todos ou os outros. Eu consegui. Mais do que nunca, hoje eu sou eu, inteira, e eu sou dez depois dessa passagem da minha vida sem mim.

E quando quiser me rever, meu bem, e não precisa ser depois da lama, nem no final do túnel ou daquela ponte, sem deboche, eu digo, talvez me encontre já refeita, ou não, tanto faz, pois a mim não importa o que será o amanhã. O que importa mesmo é que, havendo reencontro, eu quero olhar nos teus olhos cor de mel, às vezes negros, lindos, quero ver o que você ainda sente por mim. Quero sentir. Eu quase morri, fiquei depressiva, mas tantas águas rolaram, tantas pessoas vieram, virão ou foram de nossas vidas, e mesmo assim eu sinto que ainda existem interconexões muito claras entre nós. Na verdade, é um pouco estranho, a minha sensação é que tudo passa. O tempo, a vida, as pessoas, as charretes, os carros, as aeronaves, as espaçonaves, mas a gente fica sempre. Mesmo que distante, às vezes. A gente fica nesse de querer se amar para o resto da vida meio que sem assumir, é que eu acho que ambos somos muitos orgulhosos para chegarmos a esse ponto e nos declararmos. Já nos refizemos, tomamos os nossos rumos e ficamos um pouquinho rancorosos também, não é de se negar.

Mas se um dia realmente quiser me rever, e que queira, quem sabe, a casa ainda é sua, mesmo que já haja alguma nova decoração para me tapear. Passa lá, quem sabe a gente não assiste de novo aquela série do Dr. Barbudinho? Vai me encontrar diferente, é verdade, e eu a você, mais inteiros em umas partes, menores em outras, pequenos, mas não nos façamos essa desfeita. Eu estou estudando cinema, fiquei sabendo que você parou com a militância, que está mais magro e cabeludo, eu também estou com uns quilinhos a menos, sei também que namorou, separou, e eu também. São tantas mudanças, mas há uma essência que fica e é justamente ela que eu senti hoje pela manhã e que me impulsionou a escrever-te.

Então, se um dia nos reencontrarmos, e não estou fazendo um convite, é apenas um vislumbre, que sejamos o que a gente quer, o que a gente pode, porque a gente pode. Pois, no final das contas, a gente descobriu junto que o nosso maior amor está na gente mesmo. E é curioso ter de encarar o fato que tivemos que nos separar para descobrirmos que a gente é um pouco um ao outro, mesmo nas brigas, nas frestas, no sexo, a gente é meio um o outro porque a gente gosta do jeito que a gente é. Um ao outro.

“Olhos nos olhos” é a música do Chico que me inspirou hoje a escrever-te, roubei dela algumas palavras. Quem sabe na semana que vem não é a sua vez? Eu bem aceitaria um Vinícius, sei lá, sempre lhe cai bem. Surpreenda-me. Mesmo machistinha, eu acho que você consegue. Não sei como vou estar na semana que vem, é uma outra história, mas acho que uma hora ou outra teremos que aceitar a dura realidade que a vida nos pregou, porque agora não dá mais, ferrou, é com a gente mesmo. Porque mais importante do que isso tudo, essa de sermos inteiros, de atravessarmos a ponte, nos reconhecermos e nos reencontrarmos, e acho que isso tudo fez muito bem pra gente, é perceber que às vezes eu fecho os olhos à noite, antes de dormir, e lembro-me desse negócio de olhar-te nos olhos, fixamente, e me desconsertar, te desconsertar, trocar piscadelas marotas e desviadas, um pequeno sorriso. É que quando eu olho nos teus olhos e os teus me olham, os meus lábios ainda tremem, a carne fica trêmula, eu fico, a minha boca fica oca da tua língua e a minha língua fica à míngua sem a tua boca, e talvez a sua, roubei essa passagem do Ney, e aí vejo que não dá mais para aguentar. Até hoje, vez em quando eu me masturbo e acordo com o cheiro do seu sexo nas minhas mãos. Então eu aceitei que, mais impossível do que ficarmos juntos, é a possibilidade de vivermos longe um do outro.

Em relação a você, eu não desisti em nenhum dia na minha vida, não é agora que eu o faria. E não é porque hoje eu estou bem que significaria o contrário. Então que olhemos sem pressa para a frente, daqui a pouco, para os olhos dos outros, para os olhos do mundo, que observemos o futuro aos nossos olhos, o nosso presente, à nossa maneira, rindo um pouco do passado. E que isso seja o bastante para termos certeza de que o melhor a se fazer para o resto da vida, depois do nosso sexo, do nosso beijo e das nossas trocas de olhares, é voltar para debaixo das cobertas e assistir aos filmes do Woody Allen com todos os sabores daquele sorvete importado que a gente tanto adorava. Bye, bye, estou indo lá na locadora.

Um beijo, te cuida.

Mariana.

24 de novembro de 2011


E a música que a Mariana citou é essa aqui ó... Olhos nos olhos.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

As leis de incentivo e as peripécias da sala ao lado

Não leve a sério, leia na boa, sem preconceitos, é só mais um desabafo com pontinhas de verdade. Encare esse texto como quiser, ou como puder, tenda a divertir-se. Se não rolar, queime-o depois de ler, tá tudo certo. Mas se gostar, querido companheiro, compartilhe-o e vem comigo, porque o barco já tá saindo.

Novembro está acabando, hoje é dia 30, o último para inscrevermos propostas para a lei rouanet no salicweb, o sistema virtual do MinC. Depois disso, meus camaradas, só em fevereiro do ano que vem. Não deu, blau blau. “E o seu, já foi?”. Essa era a pergunta do dia na rádio-peão da empresa. “Não, não foi”.

E o dia começou bem, estávamos todos naquela levada de ú-hú!, oba-oba, vamos conseguir, o ano está acabando, coisa e tal, mas próximo da hora do almoço eu comecei a suspeitar das meninas aqui da sala ao lado, certos movimentos sigilosos, sensíveis mudanças comportamentais – e são todas meninas, mas aparentemente não estavam de tpm -, o vazio e o silêncio sobrepunham-se àquele singelo clima do início do dia. Fiquei preocupado, pois elas se prepararam arduamente nas últimas semanas para enfim tirarem férias do salic, aquela coisa toda, e aos poucos fui vendo as suas faces murcharem, não eram mais tantas flores assim, começaram a se tomar por um ódio espinhento e demasiadamente único. São todas dóceis, adoro-as, mas assustei-me quando comecei a ouvir gritinhos algo do tipo “o salic não funciona!”, “essa merda trava toda hora!”, e coisas um pouco piores também, do tipo censuradas-para-cidadãos-em-níveis-avançados-de-interação-com-o-salic e que nutrem certa simpatia por ele, como eu, aquele bonitinho de uma figa. Achei tudo um pouco estranho, eu costumo defender o salic, então comecei a dar alguns telefonemas para passar a limpo, entrei nas redes sociais, alguns outros amigos estavam emputecidos também, ouvi vários “porra, caralho, essa merda não funciona!”, “avisa o MinC aí que eu vou mandar matá!”, “#foraanadehollanda!”, e por aí vai... Pronto, ferrou, queimei a língua de novo.

O salic é lindo, foi criado com a melhor das intenções, queriam evitar os mais de 10 mil projetos em trânsito (e em papel) de outrora, dar celeridade a certos processos, pois cada análise demorava cerca de quatro a cinco meses, para se conseguir falar no MinC era preciso quase que um parto, “moço, morrendo, me atende!”, quando não comprávamos passagens e íamos lá em Brasília apenas para perguntar “e aí, como está o meu projeto?”, “está em análise sr., próximo da fila?”. Ponto final. Era duro. Mas ele veio aí, mesmo aos trancos e barrancos, desburocratizou e melhorou a nossa vida. Tornou possível uma gestão de gente grande nesse universo artístico pra lá de capenga.

Só que, especialmente em dias como hoje, fica um quezinho de falta – e aí não é uma crítica direta ao poder e nem a ninguém em especial, mas ao processo -, fica essa sensação do avanço pela metade, falta algo, sinto que me deram a carcaça apenas, algo bem parecido com aquelas novelas mexicanas que assistíamos na telona, na adolescência, e que do nada mudaram para o HD. A cara mudou, ficou linda, mas e por dentro?

E aí hoje, no calor da situação, de uma forma bem passional e nada coerente, resolvi falar das leis sem preocupação com dados ou detalhes, e não venham me pedir para aprofundar-me em outros mecanismos, na política, etc, eu quero só falar delas e me dei esse direito. Costumo chamá-las de ferramentas de sobrevivência. Porque, no final das contas, é isso que mesmo que elas são. Dependemos. E como em matéria de sobrevivência não se brinca, é sempre prudente e saudável que se coloque alguns pingos nos is e que se jogue um questionamento ou outro.

Penso, então: por que o salic fecha de dezembro a janeiro? Eu não esperava por isso. E logo a lei rouanet, que sempre foi celebrada por receber propostas o ano todo, afinal a caixa da isenção fiscal nunca fecha, nunca conseguimos captar tudo... A resposta é que existem processos internos importantíssimos a serem feitos nessa época, em tese a classe toda está de férias (?), tem a questão orçamentária, enfim, processos. Eu até entendo, só não concordo muito. Porque existe uma coisa – e aí a carapuça pode servir para a lei municipal e para a lei estadual também – que se chama o arranjo do caos, a adequação às especificidades e às peculiaridades da matéria, no caso o nosso mercado. A minha bandeira passa muito por aí: aceitem o caos, queridos companheiros! Por que não? Todos sabemos, no final das contas - e isso não se muda da noite para o dia - que é no 2º semestre que as coisas acontecem. A maioria dos festivais, as montagens, as peças, os prêmios, quase tudo. E aí não podemos dar as costas e aceitarmos esse finge que finge, me deixa, o outro empurra, “beijo, não me liga”, enquanto ficamos todos nesse corre danado.

Entre julho e agosto, por exemplo, temos a lei estadual. 45 dias. Ufa, é uma correria só. E é justamente quando estamos em produção, é quando geralmente – muito embora raramente - conseguimos captar algum dindin, e aí temos que parar, ficar madrugadas adentro escrevendo, escrevendo, escrevendo, dando uma ajeitadinha na produção também, sabe como é, a gente dá um jeitinho pra tudo. Mas, precisamos? Por que a lei estadual não é igual à lei rouanet, por exemplo? Por que a lei rouanet não é igual antigamente? Por que não ficam abertas o ano todo e utilizam os mesmos processos e formulários, proposta que faço a tempos? A resposta é aparentemente simples: não possui uma comissão fixa, não tem orçamento, não dá para ter pareceristas externos, etc, etc, etc. A gente entende, tamo aí pra discutir mesmo. Mas eu, particularmente, fico com uma pulga atrás da orelha, pensando se não seria bem mais fácil batalhar por uma estrutura de análise diluída ao longo do ano do que ficarmos nesse sofrimento de escreve-se-em-45-dias-dá-o-sangue-sua-quase-morre-depois-avalia-se-em-90-dias-angustia-se-todo-o-mercado-e-o-resultado-só-sai-perto-do-natal...

Pois é, na lei municipal é a mesma coisa. Um pouco pior, na verdade, pois é lançada quando a outra ainda está aberta, e aí é um deus nos acuda mesmo, a sorte é que todo mundo fica copiando e colando – e isso é óbvio pra chuchu – com o trabalho ainda de ficar adequando textos, reduzindo alguns caracteres porque os formulários são diferentes... deixa pra lá!

Outro dia, ouvi: “por que os senhores não se planejaram antes?”. Claro, devíamos. Concordo, mas só em partes. Não existe aquela máxima do tratar o diferente como tal? Princípios e princípios, meus camaradas. Porque enquanto você está aí do lado de trás do balcão, eu poderia estar me planejando, certo? É, senhor, exato. Pois é... Mas, infelizmente tem o acaso, a vida é assim mesmo, sabe, tive de fazer uma escolha entre conseguir executar o atual projeto – porque eu preciso pagar contas, o meu filho precisa ir para a creche, a gasolina aumentou, aquela coisa toda – a ficar me planejando para escrever os novos, sabe como é, não sobra muito tempo e hoje em dia só dá para viver de duas coisas, da comida e da lei, né dr.? Aí, moço, o planejamento ficou de lado, não deu, tive que correr de última hora. Que merda... Seja bem-vindo ao nosso universo.

Então batalhemos. Porque, meus caros, dói muito ouvir coisas do tipo “inscrever projeto no último dia é igual ao imposto de renda, se deixar para a última hora corre o risco de não conseguir”. Pera lá, seu guarda, se você me deu um prazo até o dia tal eu tenho direito por lei, tá lá nas instruções, nas súmulas, nos editais, em todos esses processinhos aí que confundem a nossa cabeça! Essa pauta aí é para outra seara, como já falei acima, o prazo é o prazo e o fato é que o salic, hoje, aos quarenta e sete do segundo tempo, pifou. Pifou antes até.

Coisas como essas me fazem lembrar da época dinossáurica – como ainda é um pouco com a lei estadual e a lei municipal –, lá pelo menos poderíamos recorrer aos lápis, às máquinas de escrever, grampeadores, ficaríamos desesperados porque a tinta acabou, correríamos, faríamos a agência de correios nos esperar, aquela história toda. Se a pauta for a organização e o planejamento, aí vamos para um outro lugar. Estamos apenas falando de um sistema que não funciona direito. E ponto. Afinal, meus caros, vocês não podem querer exigir esse parangolé todo de uma classe que não tem nem 1% do orçamento, pode Arnaldo?

Portanto, devastemos essas churumelas, gritemos mesmo, passemos por cima, quem mata cachorro a grito todo dia é a gente, e que depois ainda vai captar, vai pro palco, produz, tudo junto e misturado, e também presta contas no final de tudo. E isso não é porque queremos, é porque é o máximo que podemos. As leis são parte da minha vida hoje, trato-as como pessoas, tenho certa intimidade com elas e por isso eu tomo essas dores. Me chateia muito tudo isso. E o pior é saber que de momento não temos muito para onde caminhar, é como se exigissem que fôssemos todos formados pela Fundação Getúlio Vargas, enquanto alguns de nós ainda precisam vender os sapatos para subir ao palco. Aqui não é sanitário!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A professora Anália

Outro dia eu voltei à Varginha, onde vivi até os dezessete, acho que há uns dois meses, fui ser padrinho de casamento do Terezo, um desses caras que eu também adotei tipo pra vida inteira, e acho que ele a mim, foi o meu melhor amigo por toda a infância e, junto com a Juju, ambos são meus primos, forma a minha dupla de irmãos. Fiquei feliz da vida e empolgado, comprei presentes, balas, cachaças e engovs, era a segunda vez que eu ia ser padrinho, acho que já estou ficando experiente nessa história, só assim mesmo. Saltitante, eu mandei passar o terno e engraxei o sapato, sabe como é, afinal o Terezo é o Terezo, e vice-versa, ele merecia. E já fazia algum tempo que eu não voltava à Varginha, sempre ia como um foguete, um beijinho e tchau, mas a possibilidade de rever os velhos amigos e a família me aguçou, aquela coisa toda, ia ter festa, u-hú, fiquei contando as horas.

O que eu não contava, na verdade, é que eu iria ter a boa surpresa de rever quase todos os professores do tempo da escola, do jardim ao terceiro ano. E chegando à igreja, pouco antes de cruzar a linha de chegada, acho igreja um saco, me deparei logo com a tia Hilda, que é a mãe do Terezo e tentava me ensinar química, mas eu não aprendia, isso é outra história, ela adorava fazer experimentos inusitados e mandar todo mundo para o chão: vai explodir! Eu ri sozinho, olhei para o lado e vi que alguns amigos sentiam o mesmo que eu, entrei para a fila indiana dos padrinhos, o meu casal era a Juju, e começamos aquele desfile um pouco aflitos, é verdade, demos mais alguns passos, me deparo logo com o professor Venturato, que situação, o Venturato dava aula de história e era uma espécie de delegado da escola, estava em todas as esquinas ao mesmo tempo, foi ele que me pegou pela primeira vez fumando escondido na sala do maternal e matando aula no campinho atrás da escola. Ele era foda, devia ir pro Bope, o Nascimento tá por fora. Dei mais alguns passos, e aí era o Fredão, eu adorava ele, me introduziu à matemática, à física e à peteca. É, peteca, já fui bom nisso... Ao lado dele estava a tia Sílvia, que era a general do time de basquete feminino, todas as meninas tinham medo dela, exceto as pupilas e, em fileira, outros tantos profs lado-a-lado. Não me lembro agora quem mais estava lá, mas era como se eu tivesse voltado uns quinze anos no tempo, me senti meio que um Marty McFly num corredor polonês, mas também senti muita nostalgia, o tempo passa, eles são mais ou menos como aqueles atores mirins que a gente acha que nunca vão ficar velhos, muito menos morrer, tipo o Macaulay Culkin, mas eles envelhecem, é meio deprê, é foda, acontece.

O casamento foi um sucesso, muita festa depois, o Terezo ficou feliz da vida, eu fiquei, todos ficamos, e um pouco bêbados também.

Mas o mais curioso é que, a partir desse reencontro, se posso assim chamar, eu comecei a lembrar-me também de outras feras que também participaram desse processo todo de tornar-me gente grande, e aqui só vou citar a Helenice - que eu amava tanto e se foi - que, junto com o Fredão e outros, me apresentaram o belo universo dos números, ao qual me embrenhei, foram meus tutores de matemática, e eu amava matemática, até me sagrei como o melhor aluno da escola, nesse quesito eu era tipo assim uma estrela. Pop-star. Mas o tempo passa, a gente muda, os gostos mudam, as vontades, tudo muda, tudo passa. E hoje eu poderia falar mais deles ou de muitos outros, mas paro as citações por aqui, meio que abruptamente, pois lembrei-me da professora Anália.

Anália não estava lá, não deve ter sido convidada, ela foi uma dessas que passou como um furacão na escola e eu tenho certeza que a maioria dos coleguinhas daquela época, incluindo o Terezo, pode não se lembrar dela. Acho que ela me deu aula durante um ano apenas. Mas eu lembro – e agora como se fosse ontem -, foi uma saudosa e gostosa passagem, muito embora rápida. Eu nunca fui de ler na adolescência, muito menos escrever, eu devia ter uns quatorze ou quinze, e Anália, que era professora de Literatura, me passou “Um copo de cólera”, do Raduan Nassar, para fazer um fichamento – ou uma resenha, ou um resumo, ou qualquer coisa parecida - e eu meio tedioso topei e, num movimento mega-contraditório, acabei adorando aquele livro, não tinha pontos finais, eu lia, lia, lia, e não conseguia parar, acho até que a minha escrita hoje tem muitos vestígios daquilo, tenho fortes traços linspectorianos, abreuninos e nassarentos, com vossa licença, mas foi ali que debutei e, no final das contas, a primeira a gente nunca esquece.

E a Anália não dava muita bola para mim, achava que eu era mais um daqueles rebeldes sem causa, mas quando entreguei o trabalho percebi um certo ar de surpresa. Fiquei ansioso e, dias depois, ela chegou com a nota e o único dez da turma tinha sido meu. Um susto. Como assim? O meu negócio é número, professora! Anália, com um ar de “tô nem aí”, mas com um sorrisinho bem maroto do tipo esperançoso e animado, lembro-me bem, me disse a seguinte frase: “menino, você é brilhante, eu não sabia, me surpreendi, você vai longe, pode ser um grande escritor”. Naquela época aquilo não fez o menor sentido, eu gostava mesmo era de me revezar entre o xadrez, a peteca e as bebedeiras, eu mesmo me achava um rebelde sem causa, comecei cedo, então eu é que não dei a menor bola para ela.

E mesmo sabendo que eu ainda esteja bem longe disso, tenho os pés no chão e poucas pretensões, acho bem maluco tudo isso, esse negócio de destino, então hoje o que eu queria mesmo era dizer para a Anália que eu lembrei-me disso tudo outro dia, dessa história confusa e que, de alguma forma, a carapuça me serviu. Anália me despertou para esse universo, fiquei estagnado, sei lá, por uns dez anos, mas voltei, lembrei-me dela, dessa passagem, e devo-lhe no mínimo um afeto. A professora Anália nem deve saber disso e, provavelmente, esse post nunca chegará até ela, mas mesmo assim eu quero agradecê-la, singelamente e com palavras, não poderia ser diferente. Eu queria revelá-la que, no final das contas, as palavras dela, simples e diretas, fizeram acender-me uma chama, mesmo que pequena, para que essas mesmas palavras, agora minhas, quem sabe um dia, possam levar-me onde eu quiser, a qualquer lugar, rumo ao incerto. E façam, quem sabe, com que essa fogueira que hoje é o meu peito, e que um dia foi acesa meio que sem querer, não se apague nunca mais.