quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

pedaço de papel


mudei-me, mudou-se, mudamos juntos. não somos mais o que éramos há tão pouco antes desse verão. muito embora impreciso, esse estranho desejo anunciado no último encontro às cegas na sala antiga de parede vermelha cutuca-me tão belo e agressivo em algum lugar ainda intocável do corpo vazio que não consigo sequer me mover. não encontro-o ou não consigo ainda tocá-lo, mas sinto-o com tanta força. sinto-o tão próximo com muita e tanta força querendo-me invariavelmente seu e ligeiramente entregue à possibilidade do reencontro que ouso-me arriscar capaz de aceitar-me mais pulsante e estupidamente forte à ideia dos delicados e estremes toques até o gozo estúpido que sequer pudemos nos permitir nesse último encontro.

e onde vai dar?, se há de haver reencontro?, se daqui a pouco ou no próximo verão?. pouco importa!, nada importa!, nada ou pouco importa em aceitarmos mesmo tardia a possibilidade do reencontro a gozarmo-nos a alma intacta para que possamos enfim sugar-nos das melindras entranhas a urgência desse hoje impreciso. pois o que fica dessa viagem interrompida, desse conto encontrado em desejo estranho no corpo vazio, é que os dias viraram-se do avesso a imaginar-me pintando-te a aquarela nos seios macios com as novas flores e os novos sabores, e com as novas cores servidas com o gosto límpido das tuas puras verdades desprendidas da vidraça estilhaçada além de mim. e mesmo que não houvesse reencontro por agora, e há de haver algum dia?, guardar-te-ei junto ao peito inerte todas as sílabas sequer pronunciadas e que jamais caberiam-me ao singelo pedaço de papel que dispenso-te hoje junto ao ano que esvai porque amo-te muito mesmo sem saber amar.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

procurando...


ando precisando empenhar-me em projetos e ideias que me deem mais tesão.
ando precisando de mim.

acontecem certas coisas em dias comuns que fazem-lhe questionar novamente  algumas condutas. muito. a morte próxima, o novo, o incerto, de tudo um pouco ao mesmo tempo. um emprego bom, a roupa de marca, certo dinheiro no bolso, a viagem para o exterior que acontece todos os anos, a leve despreocupação com as contas a pagar ou com o que vem depois, o carro do ano, a aparente segurança.

diríamos equilíbrio.
razão.

e de que vale, no final das contas - e mesmo que seja mais um clichê - se não vale ao mesmo tempo nada? desequilíbrio. eu busco desequilíbrio. e quero gente desequilibrada ao meu redor. quero amigos que me façam desequilibrados, que me questionem e me façam como sou. que gostem-me como sou, pois na mesma medida desmedida lhes entregarei em troca. entregar-lhes-ei flores. muitas.

um desemprego bom, uma roupa que apenas cubra o corpo desnudo, o dinheiro na medida certa, a viagem ao (meu) interior, a sensação de que as contas pagas valham de fato cada centavo gasto, uma bicicleta e um carro mais antigo para levar-me onde quer que seja, uma insegurança que me leve além. além de mim e da aparente segurança impregnada em um medo-bolha que cobre-me os dias.

diríamos desequilíbrio. diríamos emoção. diríamos, então, vida.
caos-motor.
vida.

ando precisando de mim.
ando precisando empenhar-me em projetos e ideias que me deem mais tesão.
ando precisando ir.
ou vir.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

delicadeza


talvez não quisesse por agora,
você também talvez não.
não esperava, não esperávamos,
não cavávamos desmedidos em meio ao caos anunciado.
histórias, mudanças,
poemas, o novo.
de novo.
existem flores do lado de lá,
talvez existam de cá também.
talvez.
o acaso impávido e suave à porta.
revelação.

sussurrava o vento coincidente.
silenciosos e em química como a receita talvez sugerisse
encontramo-nos neste setembro.
é primavera!
e houve o toque.
e houve a pele.
e houve o impávido e suave acaso batendo à porta.
ouve.
houve o inesperado presente.
instantes.
o inevitável desejo à espreita:
sentido antigo que esvai, sinto.
sentido antigo que esvai, vai...

eu em busca de mim e da leveza impalpável,
ao encontro do meu corpo.
tu em busca de ti e da tua verdadeira face, dos teus verdadeiros gestos,
do teu mais sincero e estúpido gozo.
límpido.
quero-te em pitadas. quero-te limpa. quero-te tua. crua.
queira-me como podes, ou como queres, ou como podes querer-me. nu.
queiramo-nos como pudermos ser: leves.
não há urgência. mas há sinais.
o corpo fala. diz muito.
tem vezes grita.
urra! _________,
sentido vem.
vem...
palavras-tom.
som!

queira-me em silêncio. querer-te-ei assim também.
não me prometa muito, não lhe prometo nada.
não me prometa nada, não lhe prometo a vida.
mas lhe prometo vida.
vida.
apenas venha fresta e olha-me nos olhos, por enquanto.
beije-me o teu beijo vermelho.
a tua boca vermelha, os teus lábios vermelhos.
suja-me todo e sinta-me em teu corpo.
tocar-te-ei sem cócegas então como tocam o céu as andorinhas.
como os mais puros acordes arranham-te as costelas.
tocar-te-ei as entranhas até o gozo mais estúpido e límpido da tua alma.
vivo.
e olhar-te-ei enfim como olham os olhos mais possíveis desse impávido e suave acaso.
livres.

sinta-se no instante. deixe se impor sobre o tempo.
o tempo. o tempo. o tempo.
relógio-tempo.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
sinta-te em teu corpo e suja-te toda com os teus dedos,
olha-te em teu beijo e beije o teu próprio rosto com as tuas palavras doces,
a tua boca vermelha, os teus lindos lábios vermelhos.
despeça-se viva,
viva!
e toque-se na medida mais estreme da leveza encontrada.
me encontrarás por lá também.
sintamos os sintomas.
sintamos.
sintomas.
uma flor do lado de cá.
uma rosa do lado de lá:
papeis em branco a preencher.
deixe impor-se tácito o tempo no tempo, no tempo, no tempo
relógio-tempo,
e seja como for mesmo no breu do presente:
__________, nova!

escorra-me os teus beijos vermelhos, os teus lábios vermelhos,
a tua boca vermelha, o teu sangue vermelho.
escorra-me toda a delicadeza e a tua verdade impregnadas no teu corpo,
jorra-me!, goza-me!,
goza-me todo!
goza-me todo!
goza-me todo delicadeza!
todo!
delicadeza!
limpa-te e goza-me todo o teu gozo mais estúpido e límpido sem a pressa de termos,
ou sem a pressa de sermos,
ou de tocarmos as nossas entranhas impalpáveis.
aceitemo-nos sem os espinhos do relógio-tempo no que nos há de melhor por agora,
impávidos,
chamemo-nos suave acaso, ao acaso, e sejamos então,
e enfim.
a urgência mata.
mata.
mata.
goza-me inteiro, 
e por agora.
______________!
dois pontos:

domingo, 4 de novembro de 2012

conto encontrado


sabiam-se opostos perfeitos de tão imperfeitos. o acaso os presenteava naquele instante inesperado. partidas mal feitas, chegadas aceitas. aquele cara era o estranho perfeito e a aquela bela moça era o incerto aceito. conheceram-se numa dessas noites quase frias e chuvosas de primavera, embriagaram-se em suaves pitadas do inevitável toque à espreita e despediram-se com os rostos colados sabendo que talvez não pudessem se encontrar novamente tão cedo. mas queriam muito porque já se sentiam um pouco um ao outro desde o primeiro olhar encontrado. ela queria entender por que a tinha procurado naquele instante inesperado em meio ao caos dos dias que se anunciavam e provar um pouco mais do gosto suave dos seus lindos lábios do acaso. ele queria saber mais sobre os seus sonhos, tocar a sua pele límpida e macia como na primeira vez e sentir novamente o cheiro do seu ventre pulsante em suas mãos. queriam ver o mar sob os seus próprios olhos e queriam também andar novamente de mãos dadas no meio da multidão pelas ruas históricas da cidade repetindo os gestos encontrados no breu daquela noite quase fria e chuvosa de primavera.

sabiam-se opostos perfeitos de tão imperfeitos e aceitaram-se em química. não havia outro nome para aquele encontro do acaso. química. os seus lindos lábios suaves a esperavam, a sua pele límpida e macia o pedia piamente. os seus olhos a viam de longe e a sua carne permanecia-se trêmula mesmo à distância. carregaram consigo desde o primeiro instante inesperado um desejo súbito de seguirem adiante com o conto encontrado mesmo que não comentassem o saudosismo instantâneo que tomou-os desde a primeira despedida e a certeza do inevitável agora entranhada na memória. a vida lá fora passava inútil e estúpida, e mesmo que nada tivesse acontecido no primeiro encontro e que já soubessem de certa forma que outros dias bonitos como aqueles ainda estavam por vir porque queriam-se novamente tocando as nuvens com os rostos colados, sabiam-se seus desde aquele instante inesperado e que mais impossível do que se reverem tão cedo como o conto encontrado ao acaso sugeria-os era a possibilidade de aceitarem-se longe um do outro depois daquela noite quase fria e chuvosa de primavera quando se beijaram pela primeira vez. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

como se diz adeus a alguém com o qual não se sabe viver sem?


eu sabia que juntos faríamos da dor um prazer e mesmo assim era impressionante a minha capacidade de amá-la e a dela de partir quando anunciava pelos seus contos quais seriam os seus próximos movimentos ao passo em que o mundo ia acontecendo e eu, desastrado, cada vez mais me desacontecia. no escuro do meu quarto sozinho, na madrugada feito breu, eu era capaz de tocar a solidão nas estrelas e percebia-a também engatinhando suave por entre as minhas mãos a cada sílaba pronunciada. não estava no silêncio, não, mas muito bem guardada no grito mais profundo da minha alma. era ali o seu lugar. talvez fosse tarde, e talvez ela já tivesse partido como sugeriam-me os contos, mas ainda percebia aflito na esquina dos meus olhos negros cansados o quão belo poderia ter sido esse estranho e desconhecido amor porque sentia uma luz muito forte dessas como se houvesse vida, como se houvesse chance de ainda tocá-la ou de tocar as nuvens, como se houvesse enfim o amor projetado enquanto eu realizava que para ser feliz eu tinha de ser triste na mesma medida ao tempo em que passei a aceitar rigorosamente esse amanhã depois de tanto hoje estático nos últimos tempos da minha vida sem mim. eu aceitei e teria preservado a ideia genuína do amor à minha maneira, fosse tempo, mesmo que ele tivesse partido sem o prelúdio das desditosas cenas que ainda se anunciavam. mas como se diz adeus a alguém com o qual não se sabe viver sem?

sábado, 20 de outubro de 2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

o moço do guarda-chuva vermelho


o telefone tocou quando estávamos sentados um de frente ao outro na sala antiga de parede amarela e ele gentilmente apagou o cigarro e pediu-me licença para atender retirando-se ao cômodo vizinho. silencioso como quando nos conhecemos na biblioteca pública do bairro, o moço do guarda-chuva vermelho falava pouquíssimas palavras enquanto eu ao longe não conseguia visualizar os seus trejeitos e pude apenas ficar imaginando se talvez não fosse algum quase amor sugerido pelas lindas poesias do Neruda que eu lia enquanto o esperava com um café de punho na sua sala antiga de parede amarela. quando voltou, sentou-se envolvido por um quase silêncio à poltrona herdada de seu avô. “acho que estou apaixonado, sabe?, mas não sei se estou pronto ainda”. “pode falar...”, disse-lhe meio sem jeito e ainda um pouco tímido, mas surpreendido com a entonação de voz do moço do guarda-chuva vermelho e com o seu olhar palpitante que revelava-me um desejo incompleto em dividir algo que talvez estivesse guardado apenas consigo. “conhecia-a há alguns anos, Helena, nunca mais nos vimos. dia desses ela me mandou flores, foram essas margaridas que estão na prateleira, e desde então eu não paro de comprar margaridas. não a encontrei e não a tenho encontrado, recebi apenas algumas cartas e algumas dúzias dessas belas margaridas, mas sinto que já a amo de alguma maneira”. silenciou-me por completo, eu que sempre falava muito e que havia surrupiado a sua privacidade quando atendi o telefone na biblioteca pública, e o silêncio prevaleceu como prevalecia na maioria do tempo. ele sabia e eu inquieto em meio às suas margaridas entendia que a nossa conexão não estava nas palavras, mas em uma taciturna compreensão sobre o que era, afinal, a solidão. havia amor? na certa, duvidávamos. e não tocamos mais no assunto.

trepidante, absorvi-me em uma sensação de que talvez não fosse ao telefone um quase amor sugerido pelas lindas poesias do Neruda, mas um estranho amor autêntico que existia em Helena porque percebia a sua respiração fugaz mesmo parecendo-nos impossível novamente o amor e porque olhei à janela, também, e não tinha mais sol porque já era noite. garoava, mas era noite de lua cheia e isso talvez pudesse ser algum sinal e eu sempre apego-me a sinais como quando apeguei-me aos seus tiques na biblioteca pública percebendo-o incomodado com a minha presença perguntando sobre as horas. o silêncio absoluto tomou-nos novamente, ele me emprestou alguma roupa para que eu me sentisse mais confortável e indicou o sofá vermelho como um possível lugar para que eu pudesse me encostar. resolveu imergir-se no livro de contos que o aguardava desde quando havia se ido o último sol radiante e amarelo feito ovo e não trocamos mais nenhuma palavra. era noite de domingo e a primavera já se anunciava elegante, me lembro bem, e caímos no sono por ali mesmo. eu no sofá vermelho e ele na poltrona herdada de seu avô encostada na parede amarela da sala antiga. quando acordei, vi ao lado do telefone uma carta escrita à mão assinada por Helena e sorri, pois talvez ela realmente existisse. não tive coragem de ler ou tocá-la, sequer, e também não quis acordar o moço do guarda-chuva vermelho. vesti a minha roupa que havia ficado estirada no cômodo vizinho, apanhei o livro do Neruda para que pudesse devolvê-lo à biblioteca pública do bairro e decidi partir caminhando em silêncio como sugeria-me o encontro com o moço do guarda-chuva vermelho e em meio à garoa que ainda permanecia intermitente naquela estranha manhã de primavera. mas não sem antes regar, uma por uma, todas as suas belas margaridas que se mantinham intactas na prateleira da sala antiga de parede amarela.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Até onde vai a nossa capacidade de morrer?


Tenho vivido dias vazios. Vazios de mim mesmo e vazios também de uma vontade de viver muito presente em um passado pouco distante, mas que não consigo alcançar por agora. Permito-me então uma pausa para imergir-me um pouco mais nesse sopro inconsolável e intocável que reside em meu peito. A história de Cecília mexeu muito comigo. Comigo e com diversos próximos. Pelas circunstâncias violentas, cruéis e covardes, pela proximidade, pelos diversos amigos em comum, pelo momento político extremamente delicado que vivemos, pela bandeira que ela estava levantando árdua e lealmente por uma política de paz e comunicação não-violenta rumo a um outro e novo mundo, ou ainda pela simples semelhança a um sem-número de casos que assistimos de camarote diariamente na tevê e nos jornais. Pergunto-me, então: onde é que vamos parar?

Há exatos nove anos, passei por situação semelhante e os sujeitos que mantiveram a arma por vinte minutos na minha cabeça tinham as mesmas características frágeis e vertiginosas daqueles descritos na história de Cecília. Foi a primeira vez em que eu morri vivendo e foi muito difícil nascer de novo depois. Provavelmente muitos próximos já passaram por isso e também teriam histórias para contar. O detalhe é que apenas estamos aqui hoje porque ainda não fomos sorteados nessa roleta-russa interminável. O sofrimento não se mede, a dor não se compara. Mas o fato é que não merecemos jamais situações próximas à dos familiares de Cecília, à do filho que fica, à dos sem-número casos que vemos por aí ou à minha própria situação de nove anos atrás. Que mundo estamos construindo? Até onde vai a nossa capacidade de nos matarmos? Até onde vai a nossa capacidade de aceitarmos com que uma política que privilegia poucos e induz à discrepância entre as classes seja preponderante em relação à condição humana? Somos humanos, ora, e somos todos iguais! Vem-me à cabeça imediatamente o texto que fiz ontem, pois a gestão pública de momento e o caso de Cecília estão intima e quase que umbilicalmente ligados. Mais amor, por favor, e mais respeito no mundo também. Se não nós, jovens, quem? Para tudo que eu quero descer...

Imagino ainda, por hora, o que tenha levado os sujeitos a chegarem ao extremo no caso de Cecília. Imagino o quanto devem ter sofrido. Imagino a falta de educação e de condições básicas de sobrevivência. Imagino a incompletude da vida para eles. O que não imagino e nunca conseguiria imaginar é como estão os familiares de Cecília por agora. Não consigo. E não, naturalmente não há de se tirar a culpa dos bandidos. Mas, cá entre nós: quem são os bandidos? Há de se alimentar novamente a discussão – afinal, agora temos mais quatro anos pela frente – em torno da segurança pública, em torno das políticas públicas para o povo, em torno do que é, afinal, viver em sociedade. Onde fica o respeito ao próximo? Confesso ter dúvidas, por agora, e confesso que esse vazio em mim tem prevalecido sobre quaisquer outros pensamentos. Tolerância!

Nesse fim de semana foi-se Cecília, que eu não conhecia pessoalmente, mas que tinha muitos amigos em comum. Poderia ser qualquer um de nós em seu lugar, não tenho dúvidas. Por coincidência ou por destino, estávamos no dia das eleições. Tendo a ficar com a segunda opção. O fato é que pegou-me brutalmente a reflexão sobre esse mundo em que vivemos, sobre a sociedade que estamos construindo, sobre a importância de escolhermos em quem votar, sobre a importância de sermos políticos, literalmente, e sobre buscarmos uma política mais genuína, efetiva e com P maiúsculo. Eu andei muito no meio, e meio é equilíbrio demais, é vida de menos. Quem me conhece sabe do que eu estou falando. Talvez eu esteja gritando tarde, mas antes tarde do que nunca. É preciso lutar por um mundo melhor, é preciso amar o ser humano que mora na porta ao lado, é preciso ter coração, dignidade e, sobretudo, é preciso estar vivo para o enfrentamento. Mas tenho morrido um pouco a cada segundo só de pensar no que virá no próximo, e depois no outro, e assim em diante. A morte de Cecília é também a morte de um grande pedaço de uma juventude autoral e lúdica que pensa com os pés no chão, que sonha com propostas inovadoras para o bem coletivo, que ocupa incansável o seu espaço e os espaços públicos de uma maneira saudável e poética, que resiste à opressão e ao sistema falho como é hoje e que tem esperança e acredita em um mundo melhor para os nossos filhos e para os nossos netos, acima de tudo. Ser é diferente de ter e é apenas disso que estamos falando. Viver, respirar, abraçar, sorrir sem culpa. Amar. Espero que tudo mude, e espero que seja breve, e que sejamos um só num caminho mais sereno, límpido e suave daqui em diante. Pois, como li em um post ontem, o nome disso "não é luto, é luta". Que continuemos, então. Afinal, até onde vai a nossa capacidade de morrer?

domingo, 7 de outubro de 2012

Para o mundo que eu quero descer!


Antes de mais nada, eu não topo nada com você. Que saiba logo. Afinal, você quer rodar comigo porque acha que sabe em quem eu voto. Você me ignora porque acha que o pessoal que anda comigo não é da sua turma. Você tem medo de mim porque sabe que eu sou o seu oposto. Você me persegue e fala mal de mim porque acha que eu quero te derrubar. Você coloca adesivos duvidosos em seu carro e acha que isso passaria batido por mim ou que talvez eu fosse idiota o suficiente para aceitar-te e dar-te as minhas mãos. Não sou da tua laia. Percebe que eu nunca entreguei-lhe um sorriso sequer? Percebe que eu nunca ri das tuas piadas escrotas e de mau gosto? Você não usa vermelho. Você não veste laranja. Você não tem cor, é cinza, é do tipo que come quieto pelas beiradas com as suas patas meticulosas, com os seus gestos friamente calculados e maltrata o sujeito humano sem pensar duas vezes. Você não está aí para quem está ao seu redor. Você tratora a tudo e a todos. Você faz movimentos ocultos para chegar ao poder. Você é interlocutor com o diabo. Você é cruel. Você é o meu avesso e eu não preciso-o para me entender. Para existir. Para resistir. Prefiro à minha maneira. Prefiro a minha maneira. A minha e a dos meus pares. Você é tão besta que até hoje não sabe quem sou eu, mesmo que eu já tenha lhe dado dicas o suficiente para facilitar as suas investidas. Você me suporta, mas não eu a você. Você me admira e no fundo queria ser como eu, decente, mas a você não, a você não devo uma singela palavra de agradecimento ou respeito ou cumplicidade. Você não conhece quem anda comigo. Você não conhece gente. Você não é gente! A você, meu caro ilustre maligno e desconhecido, apenas o meu pesar e o comentário mais desgostoso que eu poderia soltar-lhe: aqui não. Não hoje, não amanhã e talvez nunca mais, quem sabe em breve.

Você é sanguessuga por poder. Você é anti-cultura, é anti-povo, é anti-gente. Você, sendo como é, é tudo que eu jamais sonhei, pensei ou planejei em ter lado a lado algum dia. Você não tem a menor ideia de quem eu seja ou do que eu seja capaz e repetir não custa nada. Eu não te quero perto de mim, pois você, sendo você e sendo o avesso daquilo que quero para o meu mundo, para esse mundo onde vivem pessoas, sobretudo, me faz mais eu: leal, justo e digno aos meus pares. Eu tenho amigos, e você? Alivia-me saber que as pessoas como você duram pouco onde estão. O tempo passa, sabe? Reconfortam-me as suas palavras tortas e esse seu jeito sem-jeito semi-diabólico porque nem isso você é capaz de ser, pois não tramite a mim e àqueles sujeitos estranhos que andam comigo nenhuma ideia ou proposta com propriedade de quem é um cidadão ou de quem apenas aceita viver num mundo de gente igual. Me deixa feliz por não saber nada disso. Você é tolo. Você não é fino, elegante e nem sincero. Você é do mau. Você é do mau. Vo-cê-é-do-mau! Eu tenho um carro vermelho, eu adoro suco de laranja, eu parei de torcer para o cruzeiro, eu pulei carnaval de sunga pelas ruas da nossa cidade e eu sou gente, sobretudo, e sou de bem. Você não cabe aqui do meu lado porque eu só ando com gente de bem, sabe? E eu procuro por gente de bem. E talvez por isso, também, você seja incapaz em entender-me em minha plenitude ou aceitar esse meu jeito descolado, justo e vivo de ser. Bem.

Você se derrete por mim e me quer ao teu lado porque não é capaz de interagir com gente. Com a gente. Com gente como a gente. Você precisa de mim e de gente como eu. Mas não mais, não por agora. Tem vezes que chego a pensar: qual é a educação que tu dá para os teus filhos? Que o menino do sinal é bandido? Que o moço do saco vai roubá-lo? Que andar de ônibus é perigoso? Que a mocinha que mora na favela é bandida ou mulher de traficante? Que só pobre estuda em escola pública? Que os pobrezinhos do bairro não podem jogar bola na mesma rua que eles? Que só se frequenta bares em lourdes, que só se anda a pé no mangabeiras e que amigo legal é aquele que se faz no minas tênis? Que preto é pobre? Que gay é demo? Que é feio se posicionar? Para o mundo que eu quero descer!!! Nesse seu mundo eu não vivo, não me pertente, o meu lugar não é do teu lado, jamais, não é onde eu quero estar. Hoje a revolta me pegou e ninguém me segura, mesmo que talvez seja tarde. Não suporto violência gerada pelo (des)funcionamento público, não suporto mediocridade pela falta de educação, não suporto a imposição na ausência de política genuína, efetiva e com P maiúsculo. Só é consciente quem vota em quem cuida de gente. Só é gente quem gosta de gente. E você, cara pálida, não é nada disso. E simples assim. O meu peito está vermelho de tanto sangrento e os olhos esbugalhados por justiça e paz. Mais amor, por favor, e mais respeito no mundo também. Vou atrás, então, e convocando todos os meus melhores nessa procissão que um dia há de gritar: dignidade! Se não nós, quem? Para o mundo que eu quero descer...

sábado, 15 de setembro de 2012

Da série micro-contos (3)


Eu estava sentado embaixo da marquise porque era uma tarde chuvosa. Acendi um cigarro e ela também. Percebi-a arrumando as mexas de seu cabelo devido ao forte vento daquele dia e mesmo bela parecia-me no entanto estar triste por algo que talvez eu fosse incapaz de compreender. Permanecemos silenciosos, muito embora inquietos, eu em uma mesa a sós e ela na mesa ao lado da minha, eu observando-a e ela observando a mim. Retomei a escrita e pedi um expresso duplo, pois precisava recuperar-me da insônia da noite anterior, enquanto ela deliciava-se com um delicado e colorido milk-shake de frutas vermelhas. Eu escrevia poesias nesta tarde, não sei por que, pois eu nunca costumo escrever poesias, e desde o momento em que me assentei embaixo da marquise devido à chuva fina que caía tive a sensação de que a moça da mesa ao lado era estrangeira, assim como eu, e que era também escritora.

Usava um all-star surrado vermelho, um cachecol amarelo e tinha uma flor entrelaçada em seus cabelos. Olhava ao nada, como se buscasse inspiração, olhava ao redor todo florido, olhou a mim rapidamente e sorriu um sorriso desses que só se vê nos filmes ou nas novelas e que não era para mim, eu sabia, retirou o bloco reciclado da bolsa e começou a escrever e então fui eu quem sorri, maroto, como se confirmasse a hipótese de segundos antes: a moça era escritora. Curioso e entusiasmado, não entendia muito bem o que estava sentindo e muito menos o que se passava na cabeça da moça da mesa ao lado, pedi um licor de chocolate para prolongar a minha estada e passei de súbito a sentir-me um pouco mais útil do que como andava me achando em meus dias, como se parte de sua inspiração, e isso me deixou ligeiramente excitado e levemente feliz. Frenético, eu é que fiquei inspirado com a moça da mesa ao lado e então voltei a escrever. Inspiração recíproca, talvez, aceitei-a de prontidão e palavras me saíam como nunca, palavras lhe saíam como eu nunca tinha visto, era um momento bonito de se ver desses que poderiam acontecer todos os dias em qualquer esquina de qualquer canto estranho do mundo, mas acontecia ali, e acontecia comigo e com a moça da mesa ao lado, com a gente meio que querendo se conhecer, pensava ensaiando em como talvez pudesse ser a abordagem, mas de repente ela fechou o bloco reciclado, colocou-o novamente em sua bolsa e se levantou como se decidida a partir, parecia-me apressada, e saiu então caminhando a passos largos.

Desconsertado, pedi então o tradicional parfait de manga daquele café daquela praça semi-abandonada próxima à estação quarenta e sete do metrô, pois apenas o doce talvez fosse capaz de fazer-me segurar a onda porque a inspiração esvaía-se aos poucos e porque a sensação de não mais vê-la, amarga, também começava a se entranhar por todo o meu corpo. Decidi-me então por partir também e quando prestes a pedir a conta e já acenando ao garçom ela retorna do nada, a moça da mesa ao lado, e senta-se de novo a escrever. Olha-me com certa timidez e um ar singelo desses que eu não estou acostumado, percebo de imediato, e pede um licor também. Sorri, de novo, e acendi mais um cigarro como se aliviado pela volta da moça da mesa ao lado. Era como se estivéssemos a sós e o mundo parado, mas era uma rua movimentada e os carros passavam, e os andantes também, e o frio que eu não estou acostumado corroía-me a costela e todo o resto do meu corpo, mas aceitei-o categoricamente decidido a permanecer silenciosamente onde estava embaixo da marquise escondido da chuva fina que ainda caía.

Minutos depois, uma amiga chegou e sentou-se junto a ela. Cumprimentaram-se e começaram uma conversa dessas que poderiam durar uma vida e pediu um café ao garçom enquanto ambas me olhavam como se papeando sobre mim e eu como se estivesse muito longe mesmo sentado na mesa ao lado não conseguia ouvi-las de modo algum, o que me deixou bastante ansioso. Acendi mais um marlboro vermelho trazido de longe cujo estoque já estava acabando e a moça da mesa ao lado que depois de alguns minutos já parecia-me menos entretida no papo acendeu um cigarro galaxy desses que não se vende mais no Brasil, talvez sua saída repentina tivesse sido para comprá-los. Parou de escrever, inquieta, acho que a presença da amiga que não parava de falar tirava-lhe o foco ou eu mesmo tirava-o, não conseguia decifrá-la, e me olhou novamente de forma mais direta dessa vez, agora como se quisesse me dizer algo, me falar algo, me chamar ou me convidar para sentar ao seu lado na mesa ao lado, talvez, era como se quisesse revelar-me o incômodo pela visita inesperada da amiga que não parava de falar e não deixava-nos mais a sós ou a sua inquietude em retomar a escrita sobre mim ou algo que eu ainda fosse incapaz de entender, talvez sobre a gente ou sobre a sua escrita ou sobre a sua aparente timidez ou quem sabe sobre o encontro inesperado e silencioso no café daquela praça semi-abandonada perto da estação quarenta e sete de metrô naquela tarde chuvosa de terça-feira que poderia ser uma tardes comum dessas quaisquer.

Eu não sabia sequer o seu nome, tampouco tinha a visto antes ou ela a mim, mas eu sabia dela, ela sabia de mim, sabíamos um do outro e sabíamos também que talvez jamais tivéssemos nova oportunidade de nos revermos ou conversamos ou de apenas trocarmos olhares e nos inspirarmos, quem sabe, e eu até ensaiei iniciar algum tipo de interação com ela, e acho que ela comigo, mas as circunstâncias não permitiram-nos e eu também não sabia muito bem por onde começar, pois além de muito tímido eu também estava precisando entregar-me à minha escrita e então empenhado dei o último trago no cigarro e apaguei-o para seguir adiante, só que a ponta do lápis tinha quebrado e eu sem pensar nesta possibilidade havia deixado todos os lápis-reservas no quarto do hotel. Sorri com um alívio estranho, pedi a conta, levantei-me e comecei a caminhar sem me permitir lançar sequer um olhar para trás, fui em direção ao Cerro San Cristóbal porque já estava prestes a fechar e aquele era o último dia da viagem, achei que talvez ela pudesse entender e achei também que talvez fosse apenas mais um desses contos desencantados e desencontrados e que pudesse ter acabado por ali.

Subi toda a ladeira do parque em um desses funiculares coloridos e velhos que parecem que vão se despencar a qualquer instante ou em todos os instantes, na verdade, e já lá do alto do Cerro, alguns minutos depois e praticamente entregue a uma escrita mais sóbria e triste, já não saíam-me poesias como pouco antes ao mesmo passo em que a chuva fina parava de cair e o sol reaparecia bonito e imponente com os Andes de fundo, brilhante e vistoso, eu consegui localizar o café daquela praça semi-abandonada próxima à estação quarenta e sete do metrô de Santiago e com certa dificuldade consegui avistar também a moça da mesa ao lado que usava all-star surrado vermelho, cachecol amarelo e flor nos cabelos junto à sua amiga acenando ao garçom para que pudessem pagar a conta. Parecendo-me inquieta, ainda, e com um galaxy em uma das mãos, entregou o dinheiro ao garçom com a sua outra mão dispensando o troco e saiu caminhando já sozinha em direção oposta à da amiga que parecia-me caminhar rumo à estação quarenta e sete do metrô. Olhei o relógio, então, já era quase cinco e faltava muito pouco para que a entrada do parque fechasse, mas talvez fosse tempo ainda de subir o Cerro em um dos últimos desses funiculares coloridos e velhos que parecem que vão se despencar a qualquer instante.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

faltam-me cores, contudo...


o dia está lindo e eu devia mesmo era querer trabalhar, paquerar, protestar, passear, ir à praia ou ao clube, quem sabe uma praça porque estamos em época de ocupação e de amplas discussões, vençamos, vejo muitos amigos alaranjados por aí e outros já mais estranhos que outrora amarelando-se, que me entendam, enquanto eu ao contrário sinto-me ainda verde em meio a tudo isso precisando amadurecer-me. vejo um verde-cinza meio que sem cor quando olho ao espelho e talvez seja a pior das sensações que eu pudesse ter por agora ou a melhor, pois quem sabe não funcione como um último gatilho. mas por hora, e talvez também por isso, isso de metade que eu digo, essa falsa liberdade que transcorre-me pelos olhos dos outros, pelos atos dos outros, tenho comigo apenas a escolha do meu edredom escuro mesmo sabendo que eu possa suar em demasia ou arder em fogos por enquanto artificiais tamanha é a chama nesse meu peito tímido, calado e escondido querendo se explodir, e talvez eu pague esse preço, mas sabendo-me também que esse edredom ao contrário talvez revele-se frágil e límpido como se despertador alegre ou como se nuvem desfazendo-se ou como se sorvete derretendo-se ou até mesmo belo como se me cobrisse com flores lindas e cheirosas, margaridas, bromélias, camélias e rosas muito coloridas confortando-me então. e nesta possibilidade iminente eu me sentiria um pouco mais leve, e livre, e solto, e querido, mesmo ciente ainda que esse lugar onde decidi enterrar-me por agora estagnado possa ser bastante diferente do que eu imaginava, nem um e nem outro, nem ao céu e nem ao mar, e me bastariam agora apenas o céu ou o mar, mas jamais esse clima mediano que impregna as minhas roupas já sujas com esse veneno cruel de alguns ímpares que se acham pares, ignorantes que são, porque a minha vontade era desprover-me por completo dessa blindagem de uma vez por todas e encará-lo de frente, o mundo como está hoje, triste, sombrio e confuso, e poder enfim levantar bandeiras e brincar de ser feliz. seria bom, e portanto lamento já exausto do tanto pensar que mesmo sendo uma escolha exclusivamente minha ainda resida em mim certo receio, um medo que corre intermitente em minhas veias e impede-me abrir de súbito as janelas da vida e deparar-me de peito cheio e olhos esbugalhados e sangrentos com as dúvidas tão cruéis que me rondeiam sobre decidir-me sóbrio por partir, ou fugir, ou ficar tentando-me diferente. contudo escolhas seriam bem-vindas, mesmo que dilacerantes, pois talvez não fossem certeiras de imediato, mas de que importa tudo isso e todos esses questionamentos inseguros e arrogantes se permitiram-me, ao menos e de imediato, respirar um pouco mais, voltar a sorrir, a brincar, a pular, a berrar, a colocar camisas de cores mais vivas e diferentes e a sentir-me vivo e meu, sobretudo, então por que não arriscar, cara pálida?

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Que volte, então...


E que assim seja, então, porque o tempo exigiu-se impor inquieto e soberano por agora, mas que volte um dia, quem sabe, e que volte mais madura como Caio F. sugeriu-me muito bem outro dia, que volte mais sábia também, inteira e não menos envolvida como a milésimos de segundos atrás em que eu a percebia entregue à gente, embrenhou-se comigo nesse novo e nosso-só-nosso mundo descoberto outrora, que volte com todas as suas margaridas amarelas, e as tulipas, e os seus sorrisos deslumbrantes, que volte com o tênis vermelho e surrado esquecido aqui em casa num dia desses de chuva em que ficou encharcado, que volte a fazer um pouco mais sorridentes esses meus dias sombrios que ficaram um pouco mais esquisitos desde o dia em que recebi aquela primeira carta, era como se um aviso, era como se um quase, era como se um não, pois era preciso libertar-se de si, e ainda é, e ainda não deu, estimo, mas que volte depois, então, e que eu volte também, pois ando precisando também, estimo, e espero que consigamos realmente nos encontrar lá na frente, e que volte com todos os seus telefonemas despretensiosos no meio da tarde, e com o seu senso de humor sem igual, que volte com músicas como aquelas que trocávamos escondidos por mensagens, que volte com poesias e com todos os defeitos que carrega consigo, pois são muitos e não por isso pouco belos ou menos seus, pois são todinhos seus e não arriscaria-me a pedir algo diferente por nada nesse mundo, não por hora ou talvez para sempre, não sei, e que volte mais bonita, que volte mais precisa, que volte mais livre, leve e solta, que volte mais fina, elegante e sincera, que volte com mais estripulias e rebeldias, que volte com todas as rugas e com todas as cicatrizes que a vida lhe impôs, pois são muitas, que volte também com aquela vontade de viver que revelou-me quando nos reconhecemos, que volte pequena também, por que não?, e que volte com carinhos, com massagens, mensagens, delicadezas e afins, com todos os ins e com todos os ãos e assim em diante, e que seja doce e longa essa tua estrada, pois será, mas que seja reveladora e que seja triste também, mas reconfortante, e que seja plena mesmo faltando-te algo ainda lá no fim do túnel onde mesmo sem saber talvez eu esteja à tua espera, ou não, pois nunca saberemos, e que sejam teus esses dias, todos eles, sobretudo, mas que volte uma hora sim, como fazem as rodas-gigantes, as cirandas, as quadrilhas ou os carrosséis, quem sabe, pois o amor talvez saiba esperar, pois talvez saibamos também, e se não soubermos de prontidão como a encomenda poderia exigir-nos talvez tenhamos de fazê-lo novamente, e tentaremos sem sombra de dúvidas mesmo sendo dois, ou mesmo que seja depois, e mesmo que disso tudo fique apenas uma vontade de mais, pois ficará, como ficará também permanente e intacto esse desejo de que haja um dia, enfim, um novo tempo de recomeçar.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

uma tarde no parque...


e tinham pipas, e skates, e carrinhos de rolimã, e pipocas doces dessas murchas deliciosas de saquinho vermelho, e salgadas também, e cachorros-quentes, e churros de doce de leite e de chocolate ou mistos, pouco importa, e flores desabrochando-se ao redor, e outras novas surgindo, e muita alegria pois tinham famílias inteiras dessas que se compreendem felizes em demasia, e um jazz suave da década de trinta tocando ao fundo despretensioso, e os técnicos, e os músicos, e os bancos vazios, e um gramado verde reluzente, e as árvores, e as plantas, e as folhas espalhadas em volta, e um parquinho cheio de crianças fingindo-se inocentes na cidade confusa, e os moços de patins, e as moças de bicicleta, e os casais namorando-se escondidos nas sombras com seus piqueniques encantáveis e com suas esteiras coloridas, e muitas lancheiras, e muitos sorrisos, e muitos carinhos, e tinha também os meninos serelepes brincando de pique e as meninas delicadas montando as suas casinhas, era possível avistar, tinham meninos montando casinhas e meninas brincando de pique também, porque somos assim afinal, e os velhinhos soltando pipa, e as velhinhas tomando chimarrão, e mais alguns outros nem tão velhinhos jogando xadrez, dama ou gamão e o mundo invertido, não me recordo bem, e tinha o sol decadente esquentando, e uma lua meio cheia e meio tímida ao fundo, cenário sem igual, e a brisa pairando, e o frio chegando, e o povo esperando um sinal qualquer, e o jovem rapaz cantando para a sua musa a tiracolo, e a sua musa observando-o apaixonada como se nunca, olhos nos olhos porque o amor é assim, bonito, e tinha o lixeiro despercebido em meio ao caos instalado, e os pipoqueiros também, e os carteiros também indo e vindo em meio à cidade esquecida, a cidade que os esqueceu, e tinham senhores, e tinham senhoras, e tinham doutores, e tinham falsos atores, e tinham até pintores, e escritores, e esportistas, e artesãos, e sonhadores, e tinham ricos e pobres ocupando-se do mesmo espaço porque isso também é viver em paz e é a nossa maneira de sobreviver, ou devia ser ao menos, e tinha eu também, por fim, e em mim, e talvez também em paz comigo e consigo ensaiando-me amar e refletindo sobre como talvez pudéssemos estar daqui a pouco deitados na grama de mãos dadas com os pés entrelaçados e olhando ao céu azul sem nuvens e sem compromissos e sem arco-íris ou vírgulas ou raios que nos jogassem em prantos, e sem muita confusão também, ao contrário, em um tempo tipo por agora ou muito em breve, quem sabe, mas já sem muitos intervalos entre hoje e amanhã, ou entre eu e você, ou entre a gente sem mais desencontros, pois ando gostando muito de sentir-te bem pertinho aqui do meu lado quase sempre... não é bom?

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

agora e para sempre, quem sabe...


e disso tudo fica uma vontade de mais... de cuidar mais de você, de mim, de cuidar melhor da gente e desse nosso quase amor um dia não inventado revelando-se em grãos, desse nosso intenso embate da alma, do encontro da carne, que saiba, que saibamos, que possamos quem sabe ir além uma hora mesmo protegendo-nos exageradamente por hora em nossos antros de calmaria, mas é difícil nos negarmos assim tão facilmente pois além-vida é o que eu sinto quando eu percebo o teu olhar mais genuíno oculto na esquina mais profunda dos teus sentimentos querendo-me ao redor entrelaçado em teu peito e sentindo-me inteiramente disposto na varanda da tua alma, ambos sentindo-nos nossos, sobretudo, pois é o que somos legitimamente e sem timidez alguma, pois quando estamos juntos a minha carne fica trêmula e simultaneamente lhe roubo sorrisos ingênuos no meio da tarde que fazem-me rir como se criança com balões coloridos num desses pontos de encontro quaisquer em que fazemo-nos felizes meio que por acaso, você me arrancando suspiros com a ponta das suas unhas nos meus braços inofensivos e eu entregando-te a minha nuca e pedindo-me teu por inteiro, e a tua boca à minha, e a gente em tempo de se entregar um ao outro em demasia enquanto o mundo, vigoroso que é, já ensaia berrar à nossa volta clamando por mais um movimento desses de grudarmos as mãos despretensiosamente no meio da rua, pois seria tão bom dizer-te bom dia qualquer dia desses, sabe?, ando querendo muito...

pois, não sei por que, talvez sabendo ou sentindo, não há muito como explicar, você arranca de mim as palavras mais belas que eu poderia soltar suave e delicadamente, como tentei outro dia naquela carta que lhe enviei, os pensamentos mais dóceis e libertinos que poderiam me consumir, acho que no fundo você me conquistou foi no oi mesmo, simples assim, naquele instante do primeiro olhar, coisa dessas inexplicáveis, pois inexplicável é também essa vontade ininterrupta de viver cada minuto intensamente sabendo-te próxima, muito embora longe, pois é difícil expressar-me convicto de que em meu peito não haja espaço para guardar tudo aquilo que eu gostaria de vomitar-lhe em pedaços de mim e desse nosso quase amor ainda incompleto, e também dessas pitadas de declarações que conseguimo-nos entregar nas horas vagas. porque é a primeira vez na vida que posso dizer a alguém com certa propriedade que sinto-me verdadeiro por completo, desnudo, liberto, se é que me entende, se me aceita como sou e mesmo com todos os defeitos, os tênis coloridos e uma aparente arrogância transparecida pela minha timidez, acho também que é a primeira conexão sem “ses” ou “poréns” à qual me entrego revelando-me maduro o suficiente para seguir em frente sem dó e sem nós e nem piedade do tempo, pois ele há de nos favorecer ingenuamente quando pegar-nos apegados um ao outro tomando banho de chuva ou andando de charrete naquele parque perto da tua casa. acho mesmo, e ainda, é que apaixonei-me, no final das contas, por todo esse conjunto dócil de encantamentos achados em qualquer hora do dia no carro, no parque, no metrô, no bar, na padaria, na escola, no trabalho ou em uma simples pétala de rosa dessas quaisquer que seríamos capazes de achar em um jardim também qualquer simplesmente para termos o prazer de entrelaçá-la ao teu cabelo, coisas que só a gente mesmo e esses nossos mil e um jeitos que temos de nos encontrarmos facilmente no tempo e em meio ao caos dos dias e a qualquer hora sem "ses" ou "poréns" poderia entender. e ainda acho, finalmente, algo talvez difícil de explicar-lhe em tão pouco tempo. é que nunca senti-me assim antes, devo-lhe dizer, sabendo-me tão em você e você tão em mim com clara solidez como se ligados por um destino desses que não se compra facilmente em qualquer esquina, pois há um misto de ansiedade e leveza, de pressa e calma, de vontade e espera, há um misto de eu e você esperando-nos agora e para sempre ali na frente, sabe, não é bonito? vem? é tão bonito que chego a imaginar, tem vezes, que você ainda muito me quer amar e eu, não obstante e não menos entregue, bom, eu ando pensando em querer também...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

sabe que ontem?


sabe que ontem enquanto eu acordava ausente e a observar a falta ao meu redor me peguei a pensar em você, e depois em você, e depois em você de novo, mais uma vez, e depois na gente, preencheu, e depois na gente ensaiando se beijar na boca e se tocar numa tarde dessas quaisquer silenciosamente no breu da sala antiga de cinema daquela praça de nome estranho no centro da cidade assistindo a um filme cafona desses de amor pra sempre e com suave timidez não-revelada, não rebuscada, e com as mãos sujas de pipoca acariciando-nos meio que escondidos por debaixo da blusa devido ao frio dilacerante, eu na sua com certo receio da tua reação e você na minha com toda a força do teu ventre, e a gente na nossa confirmando em nós aquele instante em sincronia e nos entrelaçando como se desapegados do resto do mundo ou do resto de tudo ou do resto de nada porque nada seria pleno, a partir de então, além das nossas trocas de olhares despercebidas na escuridão, não seria bom?

sabe também que ontem mesmo, um pouquinho mais tarde e já quase suando como se um remador incansável com certo receio de permitir-me acesa novamente essa chama de outrora esquecida atrás da máquina de escrever da minha vaga memória reluzente, e meio que sonhando tipo um bobo acordado, estimo, eu voltei a pensar em você mais um pouco, e depois mais um pouquinho na gente e em como você ou a gente ou esse surpreso acaso tem dominado os meus recentes pensamentos e esses tortos devaneios que galgam a me atormentar?, fiquei pensando também em quando é que que essa chavezinha resolveu virar direcionando-nos à gente e às nossas entranhas até então intocáveis, ao recomeço daquilo que nunca existiu aparentemente mas que por mais improvável talvez sempre tenha estado ali à espreita aguardando a dose certa de agora, desse agora, foi tudo meio que de súbito ou quase tudo porque completo ainda não poderia afirmar pois é apenas um tímido começo isto que permito-me arquitetar por agora com pitadas de pausados suspiros de ansiedade como tentei rascunhar-lhe noutro momento não tão distante e até então impalpável e intocável, muito embora insaciável, muito embora eu, muito embora seu, nosso, muito embora a gente tentando ser mais a gente mesmo, sabe?, inesperado encontro.

e sabe ainda que ontem, já quando a noite caía e eu de forma inusitada e desenfreada entregava-me ao delicado asfalto negro e macio que me engolia ferozmente ante à fúria da minha alma em alto e bom som diante desse agora encantador impreciso, me deu vontade de largar quase todo o resto e quase todas as perambulanças por terrenos desconhecidos e alheios que eu vinha planejando há dias ou há meses ou há anos, não sei bem, para ficar só assim pensando, pensando, pensando?, pensando em você, pensando na gente, pensando em como seria bom parar de pensar um pouquinho por hora e te encontrar numa quase noite dessas quaisquer no breu da sala antiga de cinema daquela praça de nome estranho no centro da cidade, talvez, para assistirmos a um filme desses mais generosos e de tirar o fôlego com arrepios, sabe?, grudarmos as mãos e permanecermos meio que estáticos sentido-nos delicadamente no roteiro dos nossos dias e desse não-sei-o-quê-nosso ainda não consumido ou digerido ou que ainda não é nosso por um simples detalhe ou por medo ou por receio, bobos que somos, devíamos mesmo era nos jogar nesse quase sem limites para sonhar que já nos permitiu simplesmente pensar, imagine, já não é bom? pois é... e sabe que ontem, ou depois de ontem, ou já era hoje?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Há em mim um desejo insuportável


Eu não saberia dizer ao certo quando ou onde ou porque tudo isso começou, mas o fato é que de uns tempos pra cá há em mim um desejo insuportável de me declarar, de verbalizar o que as minhas entranhas transcendem à minha pele, e aos meus gestos, e ao meu jeito cafona de lidar com isso, pois ando sorrindo só de pensar em um dia nos encontrarmos de novo, e inteiros pra gente, sinto-te tão perto e distante ao mesmo passo desconhecida, quem sabe um café ou um vinho no bar que você costuma frequentar às dezesseis e trinta ou uma fugidinha para a serra vizinha aqui da cidade, talvez, um esbarrão na rua ou trabalharmos juntos novamente como ontem, melhor, uma pipoca com filmes numa tarde dessas chuvosas de domingo ou um concerto pela manhã no parque mais bonito da cidade, ou naquela praça lá no alto do morro dos prazeres, vamos?, ou simplesmente deixarmos tudo de lado e sentarmos a conversar em qualquer lugar que seja agora, ou na semana que vem, não arriscaria revelar-me ansioso desta vez, saberei esperar para entender um pouco mais sobre essas suas coisas novas, para papearmos sobre coisas boas, sobre coisas bregas e sobre coisas à toa, desimportantes, refletirmos sobre a vida, sobre essa intensidade que nos colocou outro dia um de frente ao outro ou sobre esse quase um pouco de tudo pela metade que vem se revelando pra gente em gotículas de possibilidades desde uns tempos pra cá.

Mas sinto-me inseguro, na mesma medida em que parecemo-nos cartas marcadas, confesso, pois não sei qual seria a tua reação, se sim ou se não, talvez um talvez, pois no fundo ainda não conheço muito bem esse teu jeito gentil de revelar-se aos poucos, essas pequenas e felizes coincidências, esse teu jeito simples de surpreender-se com muito pouco de mim, mas surpreender-me com muito de ti despretensiosamente quando surge com esse teu peito aberto e essa tua beleza sem igual não revelada pela tua verdadeira face não menos bela e charmosa, pois devo confessar que me estranhou esse reencontro, se assim posso chamá-lo sequer sabendo se você realmente existe ou existirá em mim um dia, insista, insistirei, e também por não me dar conta de que talvez eu deva esperar, quem sabe devamos, o momento em que teremos mais uma ou duas dessas pequenas trocas de olhares despercebidas em meio à multidão, como na primeira vez em que nos vimos naquele jardim florido no início da primavera de outrora ou como na última vez em que paramos um de frente ao outro aceitando-nos aquela cena em frente à tua casa como se um sempre naquele milésimo de segundo, como se a derradeira chama, como se um olhar que sempre esteve ali diante de nós e dentro de nós para a eternidade daquele instante, naquele instante, eu fixamente olhando nos teus e você desesperadamente pedindo os meus em brasa.

domingo, 22 de julho de 2012

existe, sim, um amor em cada esquina...


ando reconhecendo o amor em cada esquina. ele ainda não me reconhece, não me percebe passando avoado ao redor, mas tudo bem, mas tudo sem, porque estava mesmo tudo sem antes, precisava ver. não podia sequer bisbilhotá-lo de rabo de olho, não percebia, não permitia-me, fugia e refugava-me em mim, mas não mais, não por agora, não hoje, talvez não amanhã, não sei se sempre, mas e daí, pois é tão bom sentir isso, né? viver...


quinta-feira, 12 de julho de 2012

o nosso quase amor infinito


impeço-me acelerar e me seguro oportunamente intacto, tem vezes, mas acho que no fundo eu queria mesmo era saber como você está, como tem sido os seus dias, se floridos e contornados por pães-de-açúcar e algodões-doces coloridos ou sombrios como os entristecidos de antigamente antes de nos conhecermos, antes que se escancarasse a janela desse nosso quase amor infinito, desse estranho ácido que nos conectou como se sempre, fico me corroendo atordoado e roendo todas as minhas unhas à espreita, as que me restam, ando querendo saber também se haverá reencontro algum dia, quem sabe, não é possível, mas talvez eu não tenha coragem, ou não tenhamos, ou talvez não estejamos preparados ainda, não sei, pois na última vez em que te vi, em que nos encontramos naquela praça onde os moços costumam andar de bicicleta ao entardecer como que nos despedindo desse tipo blue careta de ontem e à espera de um amanhã mais suave, e menos tardio, e menos ríspido, e mais sóbrio, lembra?, ambos estávamos sensivelmente instáveis e inseguros, era passagem, era estranho, acho que tínhamos terminado muito recentemente com os nossos antigos amantes, com aqueles nossos que não são mais nossos, esses amores de outrora quase esquecidos no porão da alma depois que nos conhecemos, mas há em mim ainda um sentimento vazio, acho que faltou algo, um quê a mais, acho que no fundo não tínhamos terminado com a gente mesmo, sabe?, porque era preciso que isso acontecesse para enfim recomeçarmos inteiros, e leves, recomeçarmos a gente com um encontro desses de verdade que se vê nos filmes. mas a minha vã sensação por hora, e com pitadas de desespero e límpida aspereza com toques de flor de sal, desprezível que sou e esperando que não seja um tempo que não volte atrás, é que tudo tenha acabado ali mesmo, talvez, insignificante, antes que pudéssemos sequer pensar em pensarmos juntos, em planejarmos, em voarmos, em sorrirmos, em estendermos toalhas para o piquenique, planarmos, em fazermos delicadamente todas essas coisas bobas e à toa que os quase namorados gostam de fazer juntos, entende?. ia doer muito se isso fosse verdade. porque eu queria mesmo era um novo gole de você para embebedarmo-nos, quem sabe, mais um pouquinho da gente fingindo-nos amantes. era tão bom, não era?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O estranho amor que existe em mim


Revelo-me no silêncio, tem vezes, e em certos poucos nãos. Autoproteção ou insegurança, talvez dissesse sem muita propriedade e uma suave preguiça social. Mas resolvi mudar, acho que foi ontem, ou na semana passada, não sei bem o exato instante, vi uma pequena luz brilhando na esquina dos meus olhos em frente ao espelho da alma do meu verdadeiro eu e decidi que era hora de escancarar-me um pouco mais, quem sabe, revelar um outro lado mais encantado da minha verdadeira face, e novo, e com sorrisos mais belos encontrados outro dia como se lápides em paralelepípedos vermelhos, e com uma nova trilha sonora também. Era jazz. Soltei-me sensivelmente, então. Convenci-me que sim. Era preciso. Mas parece-me em vão, por hora, contraditório ato, estimo que não tenha sido certeira essa minha sã tentativa, vã que seja, ou não. Pois me bastava querer, eu previa, pensava, e bastou-me enfim lançar-me de maneira diferente de antes, mais pulsante, direto e com mais sins e afins, para que outras dúvidas e incertezas ressurgissem quase como de imediato de lá e de cá, de súbito como se do fundo da gaveta do outrora ou de um novo mais novo que esse novo que surgiu há pouco de novo, não sei, de lá e de cá, talvez, e me jogassem em minha versão mais traiçoeira e imunda do que um dia sequer imaginei, atormentado que sou.

Estou diferente de ontem, sim, e talvez recluso novamente. Estamos fechados, eu e o meu corpo. E a minha alma também. Triste não, antes fosse. Desapontado talvez. Comigo e consigo, vida, de lá e de cá, e com a minha pele arrepiada e a carne trêmula reconhecidas em um dia desses quaisquer de céu azul refulgente em que estavas a regar as lindas flores do meu jardim, encantador apanhado de um punhado de pétalas que surgiu inesperado ao meu redor. Mas espero que seja passageiro, contudo, e que venham dias menos cinzentos e mórbidos do que esse ontem cafona e mais iguais a esse um dia vago qualquer, vácuo, e que eu mude um pouco mais em breve também, quem sabe, e talvez volte a ser como sempre, ou como nunca, ou como nesse quase em vão inacabado, mas sei que passa, pois tudo passa como um jovem que transcende a carne, é momentâneo esse agora impreciso, indelicado, mas uma hora passa, insisto, esvai-se delirante, e passa inclusive, e deixando lastros irreparáveis, esse desconhecido e indesvendável estranho amor que existe em mim.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

De tudo um pouco desconhecido


Ando sabendo-me da cabeça aos pés por agora e, sentindo-me meio desligado e sem saber muito bem por onde caminhar, retroagi em mim, como lhes disse outrora, e imergi-me exacerbado em introspecção com certas dúvidas que me permeiam e a ansiedade, contraditoriamente, agora caminha lado a lado com os meus dias e com a minha intensidade extremamente radical, não mais a tristeza ou os leves vazios que se colocaram ante a mim num passado não tão distante, momento de transição e de certas novas conexões, e de desconexões também, talvez, transeunte que sou, desapego iminente, e o fato é que ando pensando em não pensar muito sobre esse de tudo um pouco desconhecido que acontece comigo ao mesmo tempo nesta hora indigna e bela, muito embora incerta e imprecisa, mas que desata certos nós, e remói as entranhas, e chacoalha a carcaça, e faz pular-me de súbito da cadeira desse ontem inédito e confuso tornando-me um pigmeu insensato e de loucas e irreconhecíveis e tardias e dolorosas indecisões.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

As peripécias do quase sempre


Ainda reside em mim certo sufocamento sobre algumas questões, um estranhamento com certos lugares, com certas pessoas, com algumas decisões e indecisões, e existe em mim também certa imprecisão diante de coisas malditas, mal ditas e azedas, uma sensação de incompletude dessas que corroem os lábios e um quase suave e iminente descolamento de certas coisas materiais que necessitam desapego. Mas sinto-me diferente de antes, não é bom? Porque hoje eu posso dizer com alguma propriedade que me assumo como estou, como eu sou, como andam os meus dias ou como talvez eu queira ou possa, muito embora tenha me passado por outro em boa parte dessa estrada porque eu precisava. Eu precisava, porque eu precisava ser outro para que eu pudesse, enfim, ser esse eu novo. Ser eu de novo. Esse eu de agora. Precisava muito desse retrocesso em mim, e então retroagi para que estivesse mais preciso e mais atento por agora. E estou. Como estou. E como sinto-me também enganado por mim mesmo, tem vezes. Mas pouco importa, porque estou indiferente. Sentimento dúbio, como nunca ninguém tinha pensado nisso? Indiferente. Diferente por dentro, indiferente carcaça. Desconexo e contraditório. Ligeiramente louco.

E acho até que posso, pois é como eu me apresento ou tento e finjo me apresentar por agora. Porque no fundo eu nunca soube se havia algo de errado comigo, e talvez não, e talvez nunca, e talvez eu possa sentir-me no meu direito indiferente, mas o fato é que eu me queimei, certas vezes, e queimei também certas etapas desse processo que preferi chamar por autoimersão. Processo bom, pleno, e nisso aceitei-me quando reconheci a libertinagem que transcorria em minhas veias, em mim, em todo o meu corpo, mas isso foi bem depois do começo se assim posso dizer, pois devo confessar que em certos momentos eu optei por fugir-me à sarjeta e encontrar-me escondido a tira colo com alguma bebida ou muitos tragos ao meu redor do que encarar o inevitável e inescrupuloso embate com a minha própria alma. Declinei sobremaneira, mas não havia como desistir dessa tarefa árdua e insuficiente de tentar recolocar-me ante ao espelho e chamar a mim mesmo de filho da puta, ou de carne, ou de contradição, humano transeunte, vivo, vivo, vivo, porque é o que eu era, normal, porque é o que eu sou, e vou ser sempre, e todos somos de certa maneira também ou pelo menos um pouco.

E nessa época, nesse passado não tão distante antes que isso tudo se revelasse agora em forma de vômito encantado - sim, encantado -, a carne do jantar era preterida antes mesmo que a mesa fosse posta a mim, antes da minha hora, antes que eu permitisse-me adentrar no meu veneno mais doce, porque eu gostava muito pouco e sentia-me desconfortável em degustar os sulcos naturais que se formavam em mim. Mas era preciso, dedo na ferida, o fundo do útero, introspecção profunda. Tanto é que hoje, indiferente, já me interessam muito mais os loucos de viver, por viver, os que sabem viver e que não fingem-se santos, pois o são genuinamente também, como Kerouac e Cortázar, ou como eu mesmo arriscando-me em hesitar porque não tenho mais medo e nem aflição, ou como outros eus que sempre vou encontrar numa dessas esquinas quaisquer de Bangladesh, ou de Paris, ou da Tailândia, ou aqui pertinho do trabalho mesmo, quem sabe. Porque o fato é que ando prestando-me de uma sobriedade deleitável em meus dias. E como é bom dizer que tudo isso é muito bom.

Aceito-me, então. E reluto menos em fazer novos ou refazer velhos amigos, em romper com aquilo que me é comum, em buscar o irreconhecível em mim e nos outros, tenho pensado também em sentar mais no chão, em observar as nuvens e tentar tocá-las, em talvez declarar-me a um novo amor, quem sabe, a uma nova vida, e topar de maneira extremamente instável encontrar cruzando o meu caminho outro louco que assim como eu queimou certas etapas e escolheu dar a cara a tapa, imergir em poeiras sem trégua e sem volta, viajar o mundo, escrever poesias, fugir, aprender a tocar flauta ou arranjar uma música, escalar o mais alto topo e aprender a matar formigas em Roma, quem sabe, para desapegar-se, energizar-se e depois sentir-se, sobretudo, pois depois de um tempo não haverá mais tempo de voltar atrás, de voltar no tempo, de ser você mesmo, esse eu que você tanto busca no passado. Pois não haverá mais ele. Pois já não há. E não há mais nada, também, além desse teu eu novo, esse aí em frente ao espelho fazendo a barba pela manhã ou recolhendo rosas no jardim florido ou revelando-se pleno embaixo da água escaldante do chuveiro enquanto a fumaça à tua volta gera uma estranha sensação, muito embora boa, de ver-te desfazendo-se ou diluindo-se e transformando-se em mínimas películas novas e distantes desse outrora, um quase nada, pois é necessário arriscar-se nessa doçura amarga e bela da sociedade incansável e de um presente inoperante, mas infalível, e seguir. Porque a felicidade encontra-se também no fato do reconhecer-se no aqui, e no agora, não amanhã, nessas indetermináveis e impalpáveis e insustentáveis peripécias do quase sempre.